quinta-feira, dezembro 25, 2014

Feliz Natal - 2014

Esses dias um amigo veio perguntar se eu gostava do Natal. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, foi logo soltando um:

- É muita falsidade, né?

É mesmo? Bem, a quantidade é relativa. Ontem eu desejei um Feliz Natal para muita gente - já aproveitando pra enviar logos os desejos de um próspero Ano Novo. Por sorte, não precisei ser falso com ninguém e nem tenho ideia se alguém fez isso comigo.

Uma amiga falou que prefere se esconder o máximo possível para evitar os falsos desejos de boas festas. Achei uma atitude louvável. Ao se esconder, ela evita estresse. Evita situações constrangedoras para ela e para a outra pessoa.

Pra mim, nesses últimos anos, só tive essas situações constrangedoras não por conta de desejos falsos, mas pelo fato de algumas pessoas não gostarem de felicitar e abraçar, e o abraço é uma das minhas paixões. Porém, respeito, com certeza.

- É muita falsidade, né?

Em alguns casos, até pode ser. No meu, quando felicito alguém que não simpatizo tanto, desejo realmente que a pessoa passe bem, sem ironia ou falsidade. Esse ano, no entanto, havia uma pessoa que tava difícil desejar alguma coisa boa. Só mesmo uma BOA distância entre nós. Ali era o exemplo de maldade pura, gratuita. Por sorte, não passei perto dela e muito menos a vi ontem.

- É muita falsidade, né?

Pode até ser em um bom número de casos, mas eu acredito que algumas pessoas ficam tocadas com a história do clima de Natal. Independente da história da data, as famílias costumam se reunir e o clima entre as pessoas melhora bastante.

E fica a pergunta: por qual motivo esse clima não permanece o ano inteiro?

Não sei.

Pra mim, algumas pessoas estão sempre nesse clima.

E eu sinto isso a cada encontro durante o ano. Uma energia boa difícil de explicar. E que é possível sentir também em todas as ligações telefônicas realizadas durante o ano e durante os dias 24, 25, 31 e 1º.  Adoro fazer as ligações, desejar as coisas boas e receber essa ótima energia.

O lado bom: o número de pessoas que eu tenho vontade de ligar para desejar Feliz Natal e Ano Novo é cada vez maior.

O lado ruim: meus créditos telefônicos não acompanham.

Se você chegou até o fim do texto, obrigado pela atenção e espero que o Natal seja bom e que o próximo ano seja maravilhoso!

Beijos e abraços

=]


quinta-feira, novembro 27, 2014

Nota mental, nota solta

Que nunca nasça
no meu jardim
esse bicho feio
chamado rancor

que eu aprenda
a perdoar
não ligar mais
ou mandar logo
ir se lascar.

=]

domingo, novembro 02, 2014

Domingo

É domingo. "Ninguém trabalha", "ninguém faz nada", dizem por aí. “É um dia inútil”, falam alguns. O relógio marca 7h39 quando pego o 405 - Parque Dois Irmãos/Expedicionários no começo da linha. O bom dia do cobrador é animado e o motorista liga o rádio e aumenta o volume. “Pra dar uma animada, né?”, fala, olhando para trás por um dos espelhos internos. “Essa vai ser rápida. Pra volta, já deixei duas tapiocas pra gente reservadas com o tapioqueiro”, complemente.

Enquanto seguimos nosso trajeto, rumo ao Centro, o domingo de manhã vai se exibindo. No primeiro campinho de futebol, ex-depósito de lixo, os coroas já estão todos com a camisa laranja do time. Batem bola enquanto esperam o time adversário. Todos descalços, alguns em forma e outros com uma barriguinha saliente.

No campinho mais à frente, alguns adolescentes fazem a vistoria das redes de um dos gols. Estão bem arrumados, com calça jeans e sapato. Devem ter passado rapidamente só para dar uma ajuda, talvez. Dessa vez, os astros são bem mais jovens. Devem ter no máximo uns 12 anos. Conversam enquanto vestem meiões e chuteiras e alguns já estão em cima de uma árvore, rindo despreocupadamente. O motorista suspira: “Ê tempo bom”.

Seguindo caminho, vi que o cabeleireiro já está sentado em uma cadeira na calçada, esperando possíveis clientes para um serviço e uma conversa. No ponto ao lado, o bodegueiro já está conversando e segurando o troco para um cliente. A moça do açougue acabou de tirar o último cadeado.

Não sigo só no ônibus. Não sigo só no coletivo. Subiu um pessoal bem arrumado e cheiroso, com bíblias, roupas sociais e algumas saias jeans até o joelho. Alguns vão em silêncio e outros vão conversando amenidades. Duas paradas depois, mais gente chegando: dessa vez, estilo moda praia. O cheiro de protetor solar briga com o dos variados perfumes.

Dá pra ver um senhor varrendo a calçada, uma jovem jogando água em outra calçada, um rapaz cuidando de um pequeno jardim e uma moça desobstruindo o caminho da água no asfalto. O vendedor de verduras passa e cruza com o rapaz da chegadinha, raridade hoje em dia. O vendedor de algodão-doce caminha lentamente e uma senhora empurra um carrinho de pipoca.

A minha parada chega. “Valeu, irmão. Bom dia aí”, digo para o motorista. “Bom dia, minha joia. Se cuida!”, despede-se ele. O porteiro me entrega o jornal e o zelador pergunta se eu vi os gols de ontem. Um rapaz passa com um balde cheio d’água para lavar o carro. Vejo um amigo indo ao supermercado e outros indo para o cemitério. Hoje é domingo, hoje é Finados. Aposto que vai ter gente vendendo flores por lá.

É domingo. O relógio marca 8h04. "Ninguém trabalha", "ninguém faz nada", dizem por aí. “É um dia inútil”, falam alguns. Sigo para resolver minhas pendências. “Ninguém faz nada?”. Sei.

quarta-feira, outubro 29, 2014

O ódio que cega

De acordo com meu instituto de pesquisas, nunca antes na história desse país o nível de ódio nas pessoas e entre elas foi tão grande. A margem de erro existe, é claro, mas não souberam especificá-la. O nível de amor e respeito vai ser tema de outra pesquisa.

Não escuto mais alguém dizer “não gosto” ou “pra mim, não faz diferença”, só escuto o “odeio”. Qual é o motivo de tanta raiva, tanto ódio? E isso para assuntos banais até. “Odeio quem fala demais”; "odeio gordo"; “odeio gatos”; “odeio esse pessoal que oferece cartão”; “odeio atendente de telemarketing”; e por aí vai. Não gostar ou ser indiferente está fora de moda: o negócio é odiar.

Além disso, tudo é considerado um ato de guerra. Antigamente, era preciso espionar, invadir um território, fazer reféns ou algo do tipo. Há muitos anos, os atos de guerra são diferentes: vestir a camisa de um time; declarar opção sexual, declarar voto ou religião; preferência musical e literária; esbarrar; pisar no pé; espirrar e até olhar por mais de uns segundos para alguém (fora as loucuras no trânsito). Estamos todos em guerra contra todos e ninguém tinha me avisado nada!

Estamos vivendo o período “Ensaio sobre a cegueira” no Brasil. Todos estão ficando cegos por conta de tanto ódio. Somos todos inimigos uns dos outros atualmente. Declarados. Quando alguns começam a discutir política, futebol ou religião, a baba do ódio aparece. E escorre como uma cachoeira de esgoto.

Felizmente, ainda há esperança. Há quem promova o amor por aí, por meio de decisões políticas e principalmente por meio de atitudes cotidianas. Se não for o amor, é educação, cortesia, preocupação com o outro, gentileza ou algo do gênero, o que já é um ponto positivo. Discordar e discutir faz parte, é saudável, mas ser consumido pelo ódio é que não dá.

sábado, outubro 11, 2014

O amor e a dor de barriga

- Minha filha, o amor é que nem dor de barriga: dá e passa!

Tinha acabado de me acomodar em uma das cadeiras do ônibus da empresa. Duas senhoras conversavam animadamente, estando uma sentada na fileira da janela do lado esquerdo, à minha frente, e a outra sentada na fileira da janela do lado direito.

A frase foi dita para a filha, quando a jovem contou sobre o fim de um namoro. Pensei em interagir:

- E os dois também nos levam a fazer algumas cagadas...

Achei melhor ficar calado e não baixar o nível, piorando a conversa. Comecei a pensar no quanto aquela senhora deve ter sofrido. Alguém nasce assim, tão descrente no amor? Nascemos conhecendo o amor ou aprendemos ao longo da vida? Não sei, mas a senhora parecia extremamente descrente no tal sentimento.

Fiquei com pena, de verdade. Uma vida sem amor, olha, não desejo isso pra ninguém. Uma vida com dor de barriga, bem, eu até já desejei para algumas pessoas, mas foi só durante uma raiva, coisa rápida.

Estou aqui, escrevendo e vos importunando justamente por causa do amor. Não fosse ele, o que seria de mim? Não teria nascido e outras coisas mais. A lista é grande e não vou conseguir falar de tudo.

A dor de barriga e o amor não me parecem tão semelhantes. Em comum, já me fizeram agir com velocidade, mas por motivos distintos. Também já me fizeram passar noites em claro. A dupla tem na lista ter sido motivo para sair mais cedo do trabalho, embora também por razões distintas.

Eu não desejo pra ninguém uma dor de barriga ao acordar ou na hora de dormir, mas quem não merece um amor nessas horas, hein? O amor já me fez querer ser melhor, seja estudando, fazendo regime, aprendendo a dirigir ou fazendo coisas outras que a dor de barriga nunca ajudaria.

Enquanto pensava nisso tudo, a senhora à minha frente se ajeitava na cadeira. Colocou uns fones de ouvido e puxou um papel da bolsa. Era uma folha de papel ofício com um título grande, escrito à mão. Consegui ler de onde eu estava: Oração para proteger o seu amor.

Sorri.

quinta-feira, setembro 25, 2014

Curtas - Sem brigas

O corpo queria deitar
A mente queria voar

Brigaram

O corpo ficou
A mente se foi

Ambos morreram
De prazer...

=]

sábado, setembro 20, 2014

A minha vontade

Enquanto almoçava
me olhou e disse:
e qual é a tua vontade?

- É beijar a tua boca
Arrancar a tua roupa
Te deixar bem mais que louca

É casar contigo agora
Arrumar as nossas malas
Viajar o mundo afora

É dançar bem esquisito
Rebolando sem ter jeito
Só pra ver o teu sorriso

É cuidar de ti pra sempre
Caducando ao teu lado
Bem velhinho e contente

É criar os dois filhotes
E doá-los para o mundo
Nos enchendo de orgulho

É chorar contigo à noite
E acordar de manhã cedo
Te cobrindo de carinho

É gargalhar o dia todo
Das besteiras que fazemos
Sempre juntos, lado a lado

É te dar todos os meus beijos
Dividir as nossas contas
Ser teu lar, teu aconchego

=]

quarta-feira, setembro 10, 2014

Sete anos de viagens!!!!!!!

Sete anos. Sete ótimos anos.

No entanto, esse é o ano mais fraco em termos de produção. Muito pouco, quase nada.

Desse pouco, alguns eu gostei bastante. Outros, nem um pouco.

Deveria ter vindo falar alguma coisa ainda em agosto, mês de aniversário, mas não sabia se comemorava mais um ano ou se acabava logo de vez.

Decidi vir aqui e avisar um negócio: não vou desistir.

Vou continuar por aqui.

Um aviso aos dois leitores que passam por aqui de vez em quando: vou continuar escrevendo crônicas e poemas! (e repentes, se der vontade).

Se alguém reclamar, olha, vai ser pior: capaz de eu vir aqui e escrever alguma besteira todo dia.

E é isso, parabéns pro blog!!!!!!!

E pra minha insistência!

Que a preguiça não vença!

Não tem como viver e não ter inspiração. Se há vida, há inspiração.

Vamos tentar.

Beijos e abraços

=]

quarta-feira, agosto 13, 2014

Personificação do Amor


Quando comecei no emprego anterior, precisei aprender a hierarquia da empresa. Sub-gerente, gerente, outro gerente, superintendente, diretor e presidente. Troquei de empresa e foi mais ou menos a mesma coisa: muitos gerentes e diretores e um presidente. Você chega, descobre os caciques e se mistura com os outros índios, tudo normal.

Em muitos casos, não todos, os chefes e sub-chefes sempre exigem o tratamento correspondente. Muitos são bem apegados ao cargo, pois se esforçaram para merecer o salário e a responsabilidade, não é só pela grana, claro. Ainda que alguns não fossem bons gerentes, era preciso respeitar a hierarquia: o “baixo escalão” só declarava algo caso os superiores aprovassem. E, assim, se eu enviasse uma simples pergunta para um funcionário “comum”, ela levava dias para ser respondida.

Há hierarquia em várias empresas e instituições e precisamos respeitá-la. Tudo bem, não vejo problema algum nessa história. No entanto, a minha dúvida é seguinte: se há no campo profissional, seria possível existir também hierarquia no campo pessoal?

Talvez não haja bem uma hierarquia, mas, quem sabe, um alto escalão informal. Pai, Mãe, Avós, Avôs, Tias, Tios, Padrinhos e Madrinhas podem fazer parte dessa categoria superior. Crescemos aprendendo a respeitá-los e até apanhamos de alguns deles. Respeitar não significa ter medo, mas esse não é o foco hoje.

No meu caso, por exemplo, passei de tu ou você para senhor há alguns anos. Sinto-me um velho quando escuto alguém me chamar de senhor, mas sei que em muitos casos é apenas por educação, formalidade. Aquela conversa de vendedor e atendente de telemarketing, sabe?

Não me agarrei a nenhum cargo nas empresas por onde passei. Não faço questão de ser chamado de chefe disso ou daquilo, nem dizer qual o meu nível dentro da empresa. Sou mais um, estou lá para somar e não fujo das minhas responsabilidades. No geral, ser chamado pelo nome já me satisfaz.

No entanto, há um tratamento especial, do qual a utilização me enche de energia e alegria: Amor. Sim, ser chamado assim me faz sentir especial. E não adianta ser qualquer pessoa chamando. Por exemplo, costumo ajudar uma instituição com doações mensais e a telefonista só me chama de amor. Não dá certo, não esboço nem mesmo um sorriso. A mágica só funciona quando é a minha mulher falando. Aí, nesse caso, eu sou mais do que o namorado-marido-companheiro, eu sou a personificação do Amor.

E se ela me chamar pelo nome ou, pior, muito pior, pelo nome completo, algo há de muito errado. Sim, é um grave indicativo de que algo está errado. É como se não mais chamassem Sol e Lua pelos respectivos nomes, como se todo o arco-íris fosse apenas cinza. E a cor do mundo só volta quando eu volto a ser o Amor.

Ser o Amor de alguém não é fácil, exige tempo, dedicação, carinho, respeito, cumplicidade e muitas outras coisas. Ser chamado de Amor pelo Amor da vida inteira, representando um sentimento que os maiores poetas não conseguiram definir, não tem preço.

É isso, meu Amor da vida inteira. Eis o cargo/patente/denominação/apelido que eu nunca gostaria de perder. Não quero jamais deixar de ser o teu Amor.

Com amor,

Teu Amor

=]

sexta-feira, agosto 08, 2014

Como sair de um grupo com um comentário

Se por sorte, ou azar, alguém leu um dos meus escritos recentes, deve saber que a parada de ônibus é um dos meus locais preferidos, de vez em quando. Esses dias, estava com medo de sair pela manhã para esperar o coletivo da empresa. E o medo não era dos assaltantes ou políticos pedindo voto. Era das conversas.

Sim, porque nem só de falar de Copa do Mundo de Futebol vivíamos durante aquele mês de junho e o começo de julho. É saudável conversar sobre vários assuntos, escutar outras opiniões, respeita-las. No entanto, tais conversas não estavam me fazendo bem. Estava indo para o trabalho com um mal-estar, uma carga negativa...

Explico: os demais integrantes do grupo que toda manhã esperava o transporte comigo andavam exaltados. Estavam furiosos com muita coisa. Até aí, tudo bem, mas as notícias diárias de assaltos, mortes e crimes diversos pioraram muito quando descobri que tais pessoas era torturadoras teóricas, quer dizer, defendiam a tortura e outras coisas mais.

A manhã começava com uma revisão dos crimes do dia anterior e previsões catastróficas sobre desgraças que ainda iriam acontecer. O diálogo de umas dessas manhãs foi assim:

- Bom dia, pessoal. Ouviram os tiros ontem?
- Claro! Foram dois, não é?

- Três! Parece que mataram um dos assaltantes.
- Graças a Deus!

Bem, a pessoa falar “Graças a Deus” nesse contexto não me deixou muito animado para escutar os métodos de tortura que deveriam ser utilizados pela polícia. Só tinha visto alguns deles em filmes e olhe lá, enquanto os outros pareciam ter feito curso de tortura.

Recentemente, um amigo comentou que fez uma viagem e aproveitou para fazer um voo de parapente na praia de Canoa Quebrada. Rapidamente, quase instantaneamente, um dos integrantes do grupo comentou:

- Um amigo meu morreu num negócio desses...

É de cortar o coração da gente um comentário desses, além de acabar com o clima positivo do relato da viagem. Toda notícia tem uma versão paralela envolvendo algum tipo de desgraça. Incrível.

Conheço muita gente vítima de assalto que adoraria matar os bandidos. Entendo ser a raiva o motivo, mas não lembro de ter visto alguém falar sobre fazer isso com tanto brilho nos olhos. Falar em tortura e morte de bandido com um brilho nos olhos era comum naquelas manhãs.

Um dia eu disse: Somos todos vítimas, né? Ninguém concordou, só recebi olhares atravessados. Ninguém rebateu, mas não falaram mais. Não havia espaço para um jovem contestar a opinião dos mais velhos. Eu quase podia ler os pensamentos. Devia ser algo como “esse aí é defensor de bandido” ou “tá com pena? leva pra criar!” e algo do gênero.

Ter feito aquele comentário me fez um bem danado. Agora, excluído dos debates, posso escutar música com tranqüilidade. As minhas companhias matinais agora são Bob Marley, Luiz Gonzaga, Legião Urbana, Rebel Lion e alguns sucessos do momento nas rádios...

=]

quarta-feira, julho 30, 2014

Quando perdemos a copa

A parada de ônibus é um dos meus lugares preferidos, ás vezes. Como não vejo mais os jornais televisivos, me informo por lá. Fico sabendo dos mais diversos fatos, do futebol à astronomia, da história do mundo à do bairro, e por aí vai.

Durante a Copa do Mundo de futebol, até antes, fiquei impressionado com as conversas. Somos todos técnicos, claro, mas a competição vai além de sistemas táticos e preferências por jogadores.

Em comum, todos queriam tirar o atacante Fred. Alguns gostavam do Neymar, outros não. Falaram também da bunda do Hulk e um pouco sobre alguns jogadores, como o gol contra do Marcelo e a chance do Júlio César se redimir do erro da Copa de 2010.

Nelson Rodrigues ficaria feliz, se vivo estivesse, ao perceber o amor do grupo ali pela seleção canarinho. Assim como o escritor um dia falou, eles também defendiam a canarinho como a pátria em calções e chuteiras. O brasileiro naturalizado espanhol Diego Costa era “um traidor da pátria”. Ninguém comentou nada sobre outros jogadores brasileiros defendendo outras seleções ou mesmo o fato do Felipão ter treinado Portugal. Tudo bem.

Depois da Copa, incluindo as derrotas para Alemanha e Holanda, todos tentaram apontar erros e culpados. Cada cabeça é um mundo e pude reafirmar essa certeza com os comentários daquela manhã de sol forte:

- Perdemos quando o Neymar se machucou. Metade do time - ou mais - foi embora naquele momento.

- Acho que perdemos quando retiramos famílias de suas habitações em nome da Copa e do “progresso”.

- Quando anunciaram o Bernard no ataque, não tive dúvida: já era!

- Pra mim, perdemos quando não cumprimos os prazos para as obras civis, as de mobilidade urbana. Não teremos legado.

- Quando tomamos aquele primeiro gol, em falha de marcação grotesca, sabia que não tinha mais volta.

Eu ainda não havia dito nada, só escutava. Costumava ficar calado, pra não me estressar logo de manhã. Antes de falar, falaram algo que me fez parar para refletir:

- Perdemos por muitos motivos, antes mesmo da Copa começar até quando não tivemos um perfil tático e escalamos mal, mas perdemos mesmo quando trocamos o #somostodosmacacos pelo #sóocaraquemachucouoneymarémacaco...


E continuei calado.

terça-feira, junho 10, 2014

Não está fácil

Não havia tempo a perder. A chuva já estava para começar e uma paralisação dos motoristas e cobradores de ônibus estava em curso. Sem ônibus, sem guarda-chuva e com chuva: esse não seria um cenário agradável. Tinha vinte reais no bolso e ficou em dúvida: era melhor pegar um táxi ou ir comer alguma coisa? A fome apertava, mas iria esperar.

Correu em direção ao primeiro táxi avistado. Deu boa noite, entrou, sentou-se e disse:

- Para o Montese, por favor.
- Claro, o patrão que manda.

- Tá tudo bem com o senhor?
- Comigo sim, mas...

- Algum problema com a família?
- Não, é com a cidade mesmo. Com o país.

- Hummm...
- Tá vendo a capa do jornal? Esfaquearam um motorista e um cobrador de ônibus.

- Fiquei sabendo. Por isso a paralisação, não é?
- Eu já fui motorista. Sabia que podia acontecer alguma coisa, mas sempre pensava positivo. Agora, um pivete de treze anos sobe no seu ônibus com uma faca? Que mundo é esse? Que vida é essa?

- Não tá fácil. Não tá fácil, eu sei, mas não podemos desistir.
- Falta seriedade, falta pulso. Falta tanta coisa...

- Isso mesmo. Falta educação, saúde, oportunidade para todos...
- Falta mesmo é vergonha pra esses políticos corruptos. Pra esse pessoal dos direitos humanos! Bando de vagabundos! Só ajudam bandido!

- Olha, eu não sou do “direitos humanos”, mas não gosto de generalizar...
- São todos iguais! Corruptos e vagabundos! Tenho saudades da ditadura, sabia?

- Mas naquele tempo morria gente também, não?
- Morria, mas pelo menos só morria comunista, o trabalhador não morria não.

- Mas o senhor não parece tão velho...
- Meu pai me contou tudo. Disse que os comunistas queriam tomar o país e aí os militares impediram.

- Tomara o país antes, né?
- Isso! Para protegê-lo!

- De quem mesmo?
- Dos comunistas!

- E o que os comunistas queriam?
- Eles queriam a baderna, fazer do Brasil uma terra sem lei!

- Só isso?
- Ouvi dizer que eram socialistas também. Esse pessoal das faculdades e da guerrilha estava envolvido também.

- O país era melhor com os militares?
- Com certeza!

- Mas não tinha como haver um país melhor sem a intervenção dos militares?
- Só se o povo tomar o poder! Sim! Seria grandioso! Saúde e educação de qualidade, um país melhor para todos! Sim, seria possível, se não tivéssemos um povo tão acomodado! Se um dia o povo tomasse o poder, tudo poderia ser bem melhor.

- Humm. Deu quanto a corrida?
- Vinte e um, mas faço pelos vinte. Peço desculpas pela exaltação, mas a situação do Brasil me deixa assim.

- Tudo bem. Só achei a conversa tendenciosa, meio estranha. Essa conversa do povo tomar o poder... Parecia... Bem, deixa pra lá!
- Volta aqui! Parecia o quê?

- Parecia conversa de comunista...
- ...


=]

quarta-feira, maio 21, 2014

Medo

Estava pronto para sentar em frente ao computador e começar meu trabalho de conclusão de curso. Já tinha arrumado livros e anotações, além de uma garrafa com água, uma xícara de café e alguns biscoitos. De repente, a campainha tocou. Era o medo. Ele podia até se atrasar, mas sempre chegava, dizendo: Cheguei. Vamos começar?

Nascemos juntos, de mãos dadas, embora os médicos não o tenham percebido. Quando pequeno, se ficasse sozinho, começava a chorar. Era o medo beliscando meu coração, tornando-me inseguro. Toda criança tem medo, certo? Certo, mas poucos devem ser tão fiéis quanto o meu, acompanhando-me por toda a vida.

Quando ia sair para brincar com os amigos, ainda na infância, ele saia de casa correndo comigo, ao meu lado. Então, começava a brincar com os amigos e ele acabava indo embora. Voltava comigo, me fazendo pensar em algum sermão da minha mãe.

Passamos um tempo juntos na escola, entramos na faculdade e continuávamos juntos. Sempre. Quando tinha festa e alguma garota começava a conversar comigo, não tinha erro, ele vinha não sei de onde, colocava um braço por cima do meu ombro e falava ao meu ouvido: Já sabe que não vai dar certo, né? E começava a rir. Enquanto isso, eu começava a conversar e ele ia embora, chateado. Antes de entregar ou apresentar cada trabalho ele vinha também...

Da faculdade para o estágio e trabalho. E lá estávamos, unidos como sempre. Ah, nas entrevistas para conseguir alguma vaga também. Ele ficava sentado ao meu lado, dizendo: Ainda dá tempo de ir embora, vamos? E eu ficava, conversava e tive sorte em algumas oportunidades.

Nesse tempo todo, nunca passei um dia sem ter medo de alguma coisa. Era medo de perder a hora, de perder o ônibus ou a carona, de ter esquecido o dinheiro, de pagar uma conta, de uma data importante, de um trabalho, de fazer alguns contatos, de responder alguns e-mails. Medo de tudo um pouco.

E vocês podem até pensar: Que homem mais medroso! Não se pode viver assim! E eu concordo, não é possível viver assim. E ainda bem que não vivi assim. Esse medo por vezes era bobo, efêmero. Muitas e muitas vezes ele não foi feito veneno, paralisando minhas pernas, enrolando minha língua e confundindo meus pensamentos.

O medo não foi veneno, foi energético. Por ele eu acordava mais cedo e me tornava mais organizado, dependendo da época. Quando ele chegava ao meu lado, eu dava de ombros e o expulsava. Pensava mais rápido, pensava em soluções, em novas possibilidades. As mãos suaram frias muitas vezes, assim como senti um frio na barriga tantas outras. Não encarei todos os desafios, mas venci vários. Não fosse a presença constante do medo, como a coragem poderia ter nascido e vencido tantas vezes?


=]

sexta-feira, março 21, 2014

Ao poeta Mário Gomes

Desci do ônibus correndo
Desviando dos elefantes róseos
Vindos de Madagascar
Pulei um rio de pedras
Da largura de um orgulho
E fui veloz feito um caramujo
Queria encontrar o poeta
Antes da morte da tarde
E da inspiração fugir
Pelos dedos dos pés
Desviei de ideias tortas
De ladrões de energia
E de golpistas do amor
Peguei carona com o desapego
Em troca de consideração
Dei de cara com a vergonha
E fingi uma crise de riso
Rolando pelos céus
Enquanto assobiava trovões
Espantando as mazelas ali perto
Atolei o pé numa negatividade
E pedi a força dos fracos
Pra poder me soltar
Respirei fundo
Inspirando o passado
E expirando saudades
Corri feito tempo de prova
Pensando só em chegar
Ao ponto de desencontro
Queria ver o poeta Mário Gomes
Comendo lagartas
E defecando borboletas...

Não consegui

O sol foi embora
A lua não chegou
Nem sinal do poeta
E de suas estripulias
Peguei uns versos do chão
Coloquei no bolso da calça
Queria pagar o trem de volta
E comprar uns sonhos novos
Com o resto do troco
=]
  

PS: Sobre o poeta Mário Gomes: http://mariogomespoeta.blogspot.com.br/

segunda-feira, março 10, 2014

Sambinha pra Dona Fifa

(Tem alguém aí? Voltei, depois de uns meses. Talvez eu fique. Talvez eu pare. Talvez, mas com certeza, ninguém sabe. Beijos e abraços pra quem conseguir ler o post todo)
=]


(Havia pensado nos seguintes títulos: “A marchinha de Carnaval do momento”, “Samba pra Dona Fifi”, ou “Fica, Fifa, vai ter bolo, só pra ti”, mas nenhum deles me convenceu.)

Escutei hoje pela manhã, nesta terça-feira nublada. Eu estava em um dos ônibus mais famosos e menos confortáveis da cidade: o 041 Oliveira Paiva/Parangaba/Papicu, um dos herdeiros do extinto Paranjana.

Quem estava a cantar era um rapaz ou moça, não identifiquei direito por não ter visto bem. E olha que eu estava distante apenas uns dois metros, depois da catraca, numa massa humana composta por umas cinqüenta pessoas. Em pé. Só consegui ouvir a voz. No entanto, antes de cantar, informou:

- A composição não é minha. Escutei ontem à noite do primo do cunhado de um ex-vizinho de um conhecido de uma enteada do rapaz que toda noite pegava um ônibus que passava mais ou menos perto lá de casa. Quer dizer, é gente próxima, de confiança. Se isso chegar aos ouvidos da Dona Fifi e ela tentar me processar, vocês já sabem: não vai dar em nada, nem conheço vocês mesmo e já vou pintar o cabelo e fazer umas plásticas, fiquem avisados. E se perguntarem, digam assim: quem cantou parecia ser da classe média. Então, sugiram prender todos os suspeitos dentro dessa descrição e vai ficar tudo bem com vocês. Eu acho.

A música era mais ou menos assim... Aviso também que ela ficou legal porque parecia cantado por uma pessoa de voz grossa e outra de voz fina. Eu não me garanto muito não, mas vou tentar. E vou parar de enrolar, foi mal, galera. Se estiver baixo, avisem, beleza? Simbora!

Ai, ai, ai, ai, ai, ai
Dona Fifi tá botando pra quebrar
Ai, ai, ai, ai, ai, ai
O AI5 tá chegando pra Copa

Ai, ai, ai, ai, ai
Dona Fifi tá botando pra quebrar
Ai, ai, ai, ai, ai
O AI5 tá voltando pra Copa

Dona Fifi, dona do futebol
Dona do mundo todo
E também de todo mundo
Chegou e alugou o Brasil!
E o povo todo foi pra...

Ai, ai, ai, ai, ai, ai
Dona Fifi tá botando pra quebrar
Ai, ai, ai, ai, ai, ai
O AI5 tá chegando pra Copa

Ê festa boa, paga com meu dinheiro
Ê farra boa, paga com meus impostos
O lucro todo põe na conta da Fifi
E o prejuízo deixa pra gente aqui!

E a comadre, Dona Didi,
Deixou tudo bem claro
Quem não gostar, não tem problema
É só ficar calado!
Se for pras ruas e reclamar
Ela manda os soldados!

E os políticos
Já decidiram:
País perfeito
se faz com estádio novo!

Se não der jeito
Não tem problema!
Quem paga
a conta
é o povo!

E esse ano
tem eleição de novo!

Ai, ai, ai, ai, ai, ai
Dona Fifi tá botando pra quebrar
Ai, ai, ai, ai, ai, ai
O AI5 tá chegando pra Copa

Ai, ai, ai, ai, ai
Dona Fifi tá botando pra quebrar
Ai, ai, ai, ai, ai
O AI5 tá voltando pra Copa...

=]