sexta-feira, agosto 08, 2014

Como sair de um grupo com um comentário

Se por sorte, ou azar, alguém leu um dos meus escritos recentes, deve saber que a parada de ônibus é um dos meus locais preferidos, de vez em quando. Esses dias, estava com medo de sair pela manhã para esperar o coletivo da empresa. E o medo não era dos assaltantes ou políticos pedindo voto. Era das conversas.

Sim, porque nem só de falar de Copa do Mundo de Futebol vivíamos durante aquele mês de junho e o começo de julho. É saudável conversar sobre vários assuntos, escutar outras opiniões, respeita-las. No entanto, tais conversas não estavam me fazendo bem. Estava indo para o trabalho com um mal-estar, uma carga negativa...

Explico: os demais integrantes do grupo que toda manhã esperava o transporte comigo andavam exaltados. Estavam furiosos com muita coisa. Até aí, tudo bem, mas as notícias diárias de assaltos, mortes e crimes diversos pioraram muito quando descobri que tais pessoas era torturadoras teóricas, quer dizer, defendiam a tortura e outras coisas mais.

A manhã começava com uma revisão dos crimes do dia anterior e previsões catastróficas sobre desgraças que ainda iriam acontecer. O diálogo de umas dessas manhãs foi assim:

- Bom dia, pessoal. Ouviram os tiros ontem?
- Claro! Foram dois, não é?

- Três! Parece que mataram um dos assaltantes.
- Graças a Deus!

Bem, a pessoa falar “Graças a Deus” nesse contexto não me deixou muito animado para escutar os métodos de tortura que deveriam ser utilizados pela polícia. Só tinha visto alguns deles em filmes e olhe lá, enquanto os outros pareciam ter feito curso de tortura.

Recentemente, um amigo comentou que fez uma viagem e aproveitou para fazer um voo de parapente na praia de Canoa Quebrada. Rapidamente, quase instantaneamente, um dos integrantes do grupo comentou:

- Um amigo meu morreu num negócio desses...

É de cortar o coração da gente um comentário desses, além de acabar com o clima positivo do relato da viagem. Toda notícia tem uma versão paralela envolvendo algum tipo de desgraça. Incrível.

Conheço muita gente vítima de assalto que adoraria matar os bandidos. Entendo ser a raiva o motivo, mas não lembro de ter visto alguém falar sobre fazer isso com tanto brilho nos olhos. Falar em tortura e morte de bandido com um brilho nos olhos era comum naquelas manhãs.

Um dia eu disse: Somos todos vítimas, né? Ninguém concordou, só recebi olhares atravessados. Ninguém rebateu, mas não falaram mais. Não havia espaço para um jovem contestar a opinião dos mais velhos. Eu quase podia ler os pensamentos. Devia ser algo como “esse aí é defensor de bandido” ou “tá com pena? leva pra criar!” e algo do gênero.

Ter feito aquele comentário me fez um bem danado. Agora, excluído dos debates, posso escutar música com tranqüilidade. As minhas companhias matinais agora são Bob Marley, Luiz Gonzaga, Legião Urbana, Rebel Lion e alguns sucessos do momento nas rádios...

=]

3 comentários:

Anônimo disse...

Sempre que ouço alguém dizer que o mundo era pior antes, fico admirada em como as pessoas perdem noção da história do mundo. Elas esquecem que pessoas eram devoradas por leões diante de um coliseu lotado, por professarem essa ou aquela fé, diferente de uma oficial, ou que anos depois, essa mesma religião matou milhares porque pensavam diferente.
Hoje podemos até não vermos nossas ruas pacificadas como o ideal, podemos não ter os políticos perfeitos e honestos, mas temos leis que asseguram certa garantia.
Leis que querem destruir para um retorno à barbárie que há anos nos esforçamos para abandonar.

Engrosso, moço, junto contigo a fileira de quem não compreende aquele que quer melhorar o mundo tornando-o muito pior, propagando nossos pântanos e ignorando completamente o fato de que lírios nascem ali.

Dia desses recebi pelo wts um video de pessoas espancando um ladrão. Achei aquilo deprimente e fiz um protesto que certamente não foi compartilhado por todo mundo.

Eu gosto do ser humano, mesmo das nossas feridas, mas nós precisamos urgentemente exercitar nossa civilidade, nosso amor e sensatez, para que não corramos o risco de implodir o planeta e morrermos engasgados em nosso próprio vômito.
Seria um desperdício, já que temos tanta luz...

E então, fica a luta para que compreendamos que Gandhi não é um clichê utópico.
O cara aconteceu e morreu perdoando seu algoz.

Nessas horas, compaixão com seus companheiros do ponto de ônibus.
Compaixão como todos os cegos e surdos da alma.

Compaixão.

Michele
Sblgonoff

Anônimo disse...

Ops...
Sempre que ouço alguém dizer que o mundo era MELHOR antes...
(Foi o que eu quis dizer ali em cima!)

Michele
Sblogonoff

Helena disse...

Oi, Rafa.
Tenho certeza de que se você imaginasse o resultado, teria feito esse comentário muito antes! ;)
O melhor mesmo é manter distância do que te faz mal!

Beijos!