terça-feira, julho 30, 2013

O sanfoneiro

Foi-se embora o sanfoneiro
Perdemos um sonhador
Em cada nota uma viagem
Do palco ao interior

Em cada nota um verso
De pura lamentação
Dependendo da batida
Fazia chorar o coração

E se as notas mudassem
Não tinha mais quem chorasse
Fazia brotar novos sorrisos
E murmurar velhas canções
Era riso até no olhar
Tinha fogo em suas mãos
Dedos ágeis e espertos
Derretedor de corações

Poesia música líquida
Versos escritos no ar
A sanfona, atrevida
Nos deixava a sonhar

“Sanfoneiro, caba bom,
vem aqui, me faz favor,
solte um baião bem ardido
solta logo o forrozão!
Já tomei minha cachaça
e também a minha bença
tô caçando o cangote
daquela linda morena

Sanfoneiro, seu dotô,
faz o mundo ganhar cor
solta o riso e a dança
as conversa ao pé de ouvido
e os xamego de amor
Deixa chorar a sanfona
esquenta esse salão
manda as agonias embora
que hoje não temos hora
e fraqueza também não”

Sanfoneiro, bom poeta
do sertão pro mundo todo
da terra subiu ao céu
em canção se transformou...
=]

PS: A intenção era fazer uma homenagem ao sanfoneiro (cantor, compositor e instrumentista) que partiu recentemente. Caso não tenha ficado boa, não precisa nem dizer que a culpa é minha e não do homenageado, certo?

Beijos e abraços

=]

segunda-feira, julho 08, 2013

"Lindo é o teu sorriso"

Adriana costumava ir ao Passeio Público sempre no fim do dia. Gostava de ver o céu ficar laranja, rosa e violeta até escurecer por completo. Dizia-se uma colecionadora de pôr do Sol, guardando todos somente na memória. No entanto, se formou, deixou o estágio e começou a trabalhar. A poesia diária dos livros e do céu precisou ficar apenas para os domingos, não mais no finalzinho do dia.

Agora, frequentava o local aos domingos pela manhã, antes do pessoal das apresentações musicais começar a chegar. Ficava lendo e de vez em quando dava uma olhada para o mar. O azul do mar encontrava o castanho dos olhos provocando suspiros, como se olhasse para um amor proibido. A pela muito branca fazia Adriana ir pouco à praia. Os cuidados com a tatuagem nas costas também a desencorajavam recentemente.

Nos domingos pela manhã o movimento era pouco. Algumas famílias com crianças, raros vendedores de lanche e idosos. Há mais ou menos um mês, um outro personagem surgiu. Um jovem, gordinho, de óculos e cabelos pretos começou a sentar no banco vizinho ao da Adriana. A distância não era nem de três metros entre um banco e outro. Ela ficava um pouco incomodada, mesmo ele não sentando no mesmo banco.

O jovem parecia levar vários livros diferentes a cada domingo, pois em alguns dias ele ria feito um louco e em outros ele ficava mudo, ou chorava discretamente. Nos últimos domingos ele levou livros de poesia e começou a declamar. Isso começou a irritar Adriana, mas ela não queria deixar aquele banquinho e aquela vista depois de tantos anos juntos. Decidiu relevar.

Adriana conhecia a maior parte dos poemas declamados. Camões, Pessoa, Vinícius, Drummond e tantos outros que foram devorados por ela quando mais nova. Versos que ela mesmo escrevia nas agendas escolares ou para alguns namoradinhos do colégio. Um dia ele chegou a declamar “Eu preciso dizer que te amo”, e ela teve vontade de ir lá falar com ele. Não foi. Teve medo quando ele escolheu alguns do Augusto dos Anjos. Chorou com Cecília Meireles e suspirou com a graça do velho Drummond.

Domingo passado o rapaz levou um caderno. Riscava, apagava, ficava encarando o papel. Declamava. Fazia uma careta de desaprovação. Adriana já não lia tanto, não conseguia se concentrar. Sentava de lado no banco e alternava entre o livro e o rapaz. Quando ele reparava nela, algo raro, ela endireitava-se e sentava-se olhando para o mar. Os poemas do rapaz eram medianos. Alguns de amor, outros sobre perder pessoas, cotidiano, mar, estrelas, família. Alguns eram bem ruins mesmo, com rimas forçadas ou versos sem graça.

Ela tinha vontade de chegar no rapaz para conversar. Poderiam falar sobre literatura, vida dos poetas, métricas, escolas literárias ou sobre esse estranho ser a jogar versos para o ar todos os domingos pela manhã. Domingo passado ela soltou um pequeno riso de um verso com uma rima forçada. Ele começou a escrever no caderninho, se levantou e foi embora.

Mais um domingo chegou e Adriana dirigiu-se ao local. Nada do jovem chegar. Poderia ter se ofendido? Depois de um certo atraso, ele chegou. Bermuda jeans, camiseta branca e o caderninho. Ela não conseguiu disfarçar o sorriso, no mesmo instante em que ele olhou enquanto chegava. Ele sentou e ficou parado, feito uma estátua. Não estava escrevendo. Estava apenas a olhar o mar. Ela estranhou bastante, pois ele costumava passar muito tempo declamando ou escrevendo.

Ela tentou ler mais um pouco, mas estava inquieta. Talvez ele estivesse ofendido, deveria pedir desculpas? Ou não devia nada para ninguém e não se importava com ele? Não estava mais lendo, estava apenas a olhar para o livro. Voltou a olhar o mar. Então, escutou:

"À moça, ao mar

Melhor que olhar para o mar
É do banco levantar
Dar uma chance ao poeta
E talvez se apaixonar"

Foi um poema tão bobo, tão simples, que fez a moça sorrir. E ela fechou o livro e foi em direção ao rapaz, que sorria. “Que poema mais lindo!”, ela disse. E ele respondeu: Lindo é o teu sorriso, que deixa sem palavras até mesmo o mais falante poeta.

=]