sexta-feira, maio 27, 2011

Saudade

Bateu saudade
Bateu vontade
De estar contigo
No teu cangote, morena
Bateu desejo
Do teu olhar
Do teu sorriso
Bateu saudade
Bateu vontade
De passar o dia agarrado
De fazer carinho
Fazer versos e poemas
Só pra ti
Minha morena
Ê saudade, bateu vontade
De dançar um reggae
Ou uma polca, um funk ou jazz
Mas deu vontade
De entrançar os dedos
No teu cabelo
De colar teu corpo
No meu
Deu vontade
Bateu saudade
De te fazer navegar
No mar de beijos
E carinhos
Que só eu posso te dar
Deu vontade
Bateu saudade
Do brilho do teu olhar
Da forma como se aconchega
No meu pescoço
Da forma como me beija
E me faz voar
Estando em terra
Deu saudade
Bateu vontade
De te encontrar
Falar baixinho
Ao teu ouvido
Que eu te amo
E que eu te quero
Ca-da-vez-mais
Bateu saudade
Deu vontade
De te carregar nos braços
Casar contigo
Comer chocolate
Com yakisoba
E coca, bem gelada
Deitar na rede
Olhar pro céu
E ver as estrelas
A brilhar
Só pra nós dois
Deu vontade
Bateu saudade
De te fazer rir
Com força
Até a barriga doer
E depois te abraçar
Bem forte
Como se estivesse
A abraçar o mundo
E é mesmo
Meu mundo
Que eu descubro e navego
E exploro
Em cada parte do teu corpo
Em cada olhar
Sorriso
Em cada momento
Que bate saudade
Que dá vontade
E
Deu saudade
bateu vontade
de te beijar
loucamente
com a leveza de uma brisa
com a força de um furacão
deu vontade
bateu saudade
de te e me esquentar
sem cobertor
deu saudade
bateu vontade
de te dizer besteiras
meus sonhos
e medos
e desejos
e que eu sempre vejo no teu sorriso a certeza de dias melhores
pra nós dois
e pro mundo todo
bateu saudade
bateu vontade
bateu vontade
mesmo
de nós dois
=]

quarta-feira, maio 18, 2011

João Valente

João era um valentão onde morava e onde não morava também. Foi muito famoso antigamente, há muito tempo. Olhando para ele, sentado naquela cadeira de balanço, olhando pro tempo e mascando fumo, ninguém consegue imaginar isso, eu sei. Eu era pequeno quando ele era o maioral daqui. Ele é uma lenda viva, foi uma mistura de Bruce Lee, canja da galinha, Hércules, teimosia de velho, Steven Seagal, uma barra de ferro, Rambo, reza de avó, cheiro de jaca e licor de catuaba, quer dizer, só coisa forte.

Ouvi dizer que ele não teve parto, mas uma luta de estreia. Não apanhou, deu ele mesmo dois tapas no médico, após imobilizá-lo com o cordão umbilical. Foi preciso as enfermeiras ajudarem, e ele só sossegou mesmo quando, por sorte, acertaram a bundinha gorda dele com um calmante. Um lance de sorte ele não nascer com dentes, ou a moça da seringa teria perdido um pedaço do braço.

João era um valentão clássico: olhou pra ele, briga. E moderno: não deu atenção, briga também. Seu cartão de visitas era o bíceps direito, acompanhado do punho direito. E o cartão de saída era o bíceps esquerdo e o punho esquerdo. Sua apresentação incluía golpes com cotovelo, calcanhar, ombro, barriga, uma técnica tailandesa na qual se usa os olhos para atacar e uma técnica israelense secreta que utiliza o nariz para nocautear os adversários. Assim era João, um valentão.

Suas brigas não tinham hora para começar e muito menos para acabar. O problema de um valentão é topar com outro igual, mas para o azar de muitos, não havia igual ao João. Um dia, Pedrão da Conceição apareceu por aqui. Era o valentão da cidade vizinha. Acontece que perto de João ele virou uma flor. Logo, João era o valentão de duas cidades. E foi chegando gente, e foi apanhando gente e gente sendo espancada. Se João soubesse o que é o Universo, poderia pensar em se declarar o maioral do Universo.

E foram surgindo as mais diversas histórias sobre ele. E era tudo verdade, pois, se alguém duvidasse, ele fazia acreditar. Era melhor acreditar e continuar com os dentes do que não acreditar e ficar banguela. O azar de um valentão, mesmo, é encontrar um sujeito diferenciado, calmo, pacato. Desse que não fazem mal a uma flor, a uma abelha qualquer.

João Valente não tinha nado de bonito, mas com tanta força, quem precisa mesmo de beleza, não é? Algumas se jogavam aos pés dele e ele aproveitava cada uma como aproveitava uma fruta qualquer. No São João, deu de cara com Dona Tatá, mulher de Clóvis, único responsável pelo serviço de correios da cidade. João decidiu: ela seria sua mulher. Foi uma luta feia. Durou uns bons segundos. João agarrou Tatá pelo braço para levá-la com ele, Clóvis ficou no meio e levou um empurrão. Levantou e com toda a calma e falta de juízo do mundo, ficou novamente na frente. Tensão no ar.

Então, um golpe certeiro acertou João, bem lá em baixo, onde o homem prefere dar a cara e receber um murro a levar pancada lá. Cortesia de Tatá, valente mulher valente. Clóvis aproveitou a chance e deu um chute em João. Agora, fiquem sabendo que Clóvis trabalhava como carteiro, andava por tudo quanto era lugar. Imagine a força nas pernas. Foi só um chute. E de João Valente voaram toda a valentia excessiva e os dentes...
=]

sábado, maio 14, 2011

Dor

Eu não queria dizer isso não, mas, infelizmente, ou felizmente, eu tenho alguma experiência com a dor. Calma, não sou daqueles loucos por dor, sado ou masoquista, nem sei como diz. Eu, embora muito novo, em relação ao Sarney eu sou muito novo, já passei por uns maus bocados. E se os machucados da pele sararam, também não levo mágoas no coração e nem mesmo cicatrizes na alma.

Há mais ou menos dois anos, jogando o sagrado futebol das segundas e quartas, “ganhei” um chato problema no joelho. Um amigo muito “habilidoso” tentou passar por mim, dei um toque na bola, ele se desequilibrou e, não me perguntem como, num golpe digno de alguém da família Gracie, aplicou uma tesoura-voadora no meu joelho direito. Foram seis meses longe das quadras, gramados, areias e qualquer espaço mínimo para chutar uma bola. A dor que senti no momento foi a de alguém tentando atravessar uma faca no meu joelho. Uma dor desgraçada, mesmo. Não chorei.

Inventei, mais uma vez no futebol, até hoje não sei a razão, de ir jogar no gol. Goleiro só pode ser doido, só pode. Aí, um coroa muito forte, tipo o Rambo, deu um chute tão forte, mas tão forte, e eu fui tão burro, mas tão burro, que coloquei o braço no meio. Resultado: não quebrou o braço, mas o pulso foi embora. Umas duas semanas de tala, muito gelo e dor. Nem sinal de lágrima.

Quando pequeno, já levei mordida de cachorro e uma vez me esfolei todo numa queda de bicicleta. Por sorte meu avô estava perto e eu queria mostrar ser forte pra ele, além da presença dele sempre me acalmar. Um dia eu até quase perdi o dedão do pé direito ao pisar num resto de árvore. Já levei quedas e pancadas diversas, tudo sem derramar uma lágrima.

Quando pequeno, criança é bicho engraçado, decidi subir no escorregador ao invés de descer. Gênio, né? Toda criança faz isso. Levei uma queda, lasquei o joelho – sempre ele – no chão. Fui pra casa calmamente e dolorosamente para falar com meu pai e irmos ao médico, o joelho estava muito inchado. Eu era gordo, mas aquilo ali não era gordura não. Chegando lá, o médico disse que resolvia num instante. “Vou só ali pegar um negócio e já volto”, disse ele. Voltava com um pratinho e eu, gordinho feliz, pensava que ia ganhar um lanche. Dentro do pratinho, uma seringa, aplicada em meu joelho sem dó e piedade. E eu vi o sangue saindo do meu joelho para o prato. Sem chorar. E ganhando elogios do pai. “Caba maxo”, e eu lá, na frieza de quem tá doido pra chorar, mas não pode perder a pose de valente, fazendo uma pose igual a do Che.

Lembro que quando muito novinho, morando na Bahia, chorava ao ver meu avô saindo de casa. Isso, na verdade eu não lembro, me contaram. Ele só podia sair de casa depois que eu dormisse, senão, não tinha sossego. Chorei uma vez quando o vi doente. Estava bem, mas só o fato dele estar doente, com alguns tubos e frágil, já mexeu muito comigo. Ele sempre foi forte, teimoso e muito ativo.Vê-lo na cama não foi fácil. Graças ao bom Deus ele continua ao meu lado firme e forte e ele há de ver meus filhos cor de café com leite no final da tarde. E vai fazer pães de queijo para eles, paçoca, colocar nos braços, contar histórias e tudo mais. Tenho certeza!

Eu nunca fui muito de chorar não. Já reprovei cadeira da faculdade, levei bomba em provas diversas, não passei em concursos, terminei namoro, perdi coisas, fui roubado, perdi finais de campeonato, vi o timão e a seleção perderem, mas nada disso me fez chorar. E eu até pensava que estava ficando uma pessoa fria, mesmo com toda a sensibilidade e sentimentalidade, pois não conseguia chorar. Ficava todo arrepiado ou mesmo muito triste em algumas situações, mas nada de lágrimas.

Mas meu amor, minha morena, não resisto ao te ver mal, sofrendo, doente ou o que quer que seja, ao menos saber de ti desse jeito. Eu prometi, continuo prometendo e vou mesmo te fazer a mulher mais feliz do mundo durante todas as nossas vidas. E vou mesmo. As tuas lágrimas somam-se às minhas e doem, também aqui, e muito, em meu peito. As tuas lágrimas somam-se às minhas, assim como os teus sorrisos multiplicam os meus. Amor, vamos deixar as lágrimas de lado e voltar aos sorrisos porque nós estamos aqui para sermos felizes. Eu te amo.
=]