quarta-feira, maio 18, 2011

João Valente

João era um valentão onde morava e onde não morava também. Foi muito famoso antigamente, há muito tempo. Olhando para ele, sentado naquela cadeira de balanço, olhando pro tempo e mascando fumo, ninguém consegue imaginar isso, eu sei. Eu era pequeno quando ele era o maioral daqui. Ele é uma lenda viva, foi uma mistura de Bruce Lee, canja da galinha, Hércules, teimosia de velho, Steven Seagal, uma barra de ferro, Rambo, reza de avó, cheiro de jaca e licor de catuaba, quer dizer, só coisa forte.

Ouvi dizer que ele não teve parto, mas uma luta de estreia. Não apanhou, deu ele mesmo dois tapas no médico, após imobilizá-lo com o cordão umbilical. Foi preciso as enfermeiras ajudarem, e ele só sossegou mesmo quando, por sorte, acertaram a bundinha gorda dele com um calmante. Um lance de sorte ele não nascer com dentes, ou a moça da seringa teria perdido um pedaço do braço.

João era um valentão clássico: olhou pra ele, briga. E moderno: não deu atenção, briga também. Seu cartão de visitas era o bíceps direito, acompanhado do punho direito. E o cartão de saída era o bíceps esquerdo e o punho esquerdo. Sua apresentação incluía golpes com cotovelo, calcanhar, ombro, barriga, uma técnica tailandesa na qual se usa os olhos para atacar e uma técnica israelense secreta que utiliza o nariz para nocautear os adversários. Assim era João, um valentão.

Suas brigas não tinham hora para começar e muito menos para acabar. O problema de um valentão é topar com outro igual, mas para o azar de muitos, não havia igual ao João. Um dia, Pedrão da Conceição apareceu por aqui. Era o valentão da cidade vizinha. Acontece que perto de João ele virou uma flor. Logo, João era o valentão de duas cidades. E foi chegando gente, e foi apanhando gente e gente sendo espancada. Se João soubesse o que é o Universo, poderia pensar em se declarar o maioral do Universo.

E foram surgindo as mais diversas histórias sobre ele. E era tudo verdade, pois, se alguém duvidasse, ele fazia acreditar. Era melhor acreditar e continuar com os dentes do que não acreditar e ficar banguela. O azar de um valentão, mesmo, é encontrar um sujeito diferenciado, calmo, pacato. Desse que não fazem mal a uma flor, a uma abelha qualquer.

João Valente não tinha nado de bonito, mas com tanta força, quem precisa mesmo de beleza, não é? Algumas se jogavam aos pés dele e ele aproveitava cada uma como aproveitava uma fruta qualquer. No São João, deu de cara com Dona Tatá, mulher de Clóvis, único responsável pelo serviço de correios da cidade. João decidiu: ela seria sua mulher. Foi uma luta feia. Durou uns bons segundos. João agarrou Tatá pelo braço para levá-la com ele, Clóvis ficou no meio e levou um empurrão. Levantou e com toda a calma e falta de juízo do mundo, ficou novamente na frente. Tensão no ar.

Então, um golpe certeiro acertou João, bem lá em baixo, onde o homem prefere dar a cara e receber um murro a levar pancada lá. Cortesia de Tatá, valente mulher valente. Clóvis aproveitou a chance e deu um chute em João. Agora, fiquem sabendo que Clóvis trabalhava como carteiro, andava por tudo quanto era lugar. Imagine a força nas pernas. Foi só um chute. E de João Valente voaram toda a valentia excessiva e os dentes...
=]

7 comentários:

Roberta Galdino disse...

ah João
Valente João...
ah cara
ficou muito lindo isso!
parabéns
e obrigada pela visita e comentário
beijos

http://rgqueen.blogspot.com/

Katherine disse...

Adoro sua shistórias Rafa.. estava sumida de ler suas coisas, me desculpe, masaqui estou eu de volta.. como é encantadora a forma em que vc consegue me prender em sua spalavras... como é fascinanete todas em um conjunto de texto que quando se lê visualizamos td com muita facilidade.. amei a frase final amei mesmo tão sonora.. ouvi Maco Nanini narrando toda a história como em Lisbela e o Prisioneiro ou Auto da compadecida... histórias que tem afins.. visualizo logo o sertão rsr.. um grande abraço gostei demais...

Ju Fuzetto disse...

kkk!

Adorei o conto!

E o blog é super legal!

Voltarei mais!

beijo

Inacreditável Mundo de Múltipla Lua disse...

Tinha que ser ele, inspira poesia, sem perceber!!! Obrigsda por essa energia que nos une e fez com que eue saísse do casulo para o inacreditavel mundo...
Obrigada por tudo e uma linda semana!!!

Inacreditável Mundo de Múltipla Lua disse...

Tinha que ser ele, inspira poesia, sem perceber!!! Obrigada por essa energia que nos une e fez com que eu saísse do casulo para o meu inacreditavel mundo...
Obrigada por tudo e uma linda semana!!! Abraços!!!

HComunic disse...

Bem feito para o valentão, onde já se viu roubar a mulher do outro?

Jaci disse...

Oi Rafa, acho que já posso te chamar assim depois de tanto tempo de "parceria entre blogs" neh heheh vim aqui viajar ctgo tambem e agradecer a companhia infalível... tuas visitas são sempre especiais pras Eutimicas, beijo grande, Jaci