quarta-feira, maio 21, 2014

Medo

Estava pronto para sentar em frente ao computador e começar meu trabalho de conclusão de curso. Já tinha arrumado livros e anotações, além de uma garrafa com água, uma xícara de café e alguns biscoitos. De repente, a campainha tocou. Era o medo. Ele podia até se atrasar, mas sempre chegava, dizendo: Cheguei. Vamos começar?

Nascemos juntos, de mãos dadas, embora os médicos não o tenham percebido. Quando pequeno, se ficasse sozinho, começava a chorar. Era o medo beliscando meu coração, tornando-me inseguro. Toda criança tem medo, certo? Certo, mas poucos devem ser tão fiéis quanto o meu, acompanhando-me por toda a vida.

Quando ia sair para brincar com os amigos, ainda na infância, ele saia de casa correndo comigo, ao meu lado. Então, começava a brincar com os amigos e ele acabava indo embora. Voltava comigo, me fazendo pensar em algum sermão da minha mãe.

Passamos um tempo juntos na escola, entramos na faculdade e continuávamos juntos. Sempre. Quando tinha festa e alguma garota começava a conversar comigo, não tinha erro, ele vinha não sei de onde, colocava um braço por cima do meu ombro e falava ao meu ouvido: Já sabe que não vai dar certo, né? E começava a rir. Enquanto isso, eu começava a conversar e ele ia embora, chateado. Antes de entregar ou apresentar cada trabalho ele vinha também...

Da faculdade para o estágio e trabalho. E lá estávamos, unidos como sempre. Ah, nas entrevistas para conseguir alguma vaga também. Ele ficava sentado ao meu lado, dizendo: Ainda dá tempo de ir embora, vamos? E eu ficava, conversava e tive sorte em algumas oportunidades.

Nesse tempo todo, nunca passei um dia sem ter medo de alguma coisa. Era medo de perder a hora, de perder o ônibus ou a carona, de ter esquecido o dinheiro, de pagar uma conta, de uma data importante, de um trabalho, de fazer alguns contatos, de responder alguns e-mails. Medo de tudo um pouco.

E vocês podem até pensar: Que homem mais medroso! Não se pode viver assim! E eu concordo, não é possível viver assim. E ainda bem que não vivi assim. Esse medo por vezes era bobo, efêmero. Muitas e muitas vezes ele não foi feito veneno, paralisando minhas pernas, enrolando minha língua e confundindo meus pensamentos.

O medo não foi veneno, foi energético. Por ele eu acordava mais cedo e me tornava mais organizado, dependendo da época. Quando ele chegava ao meu lado, eu dava de ombros e o expulsava. Pensava mais rápido, pensava em soluções, em novas possibilidades. As mãos suaram frias muitas vezes, assim como senti um frio na barriga tantas outras. Não encarei todos os desafios, mas venci vários. Não fosse a presença constante do medo, como a coragem poderia ter nascido e vencido tantas vezes?


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