sexta-feira, março 16, 2012

Poema para que fiques comigo

O poema
Não rima
De forma alguma
Mas te peço
Escute
Com o coração
Não seja chata
Gramática
Ou crítica literária
Seja apenas
Minha vida
Como sempre
Tem sido
E será
Sempre
Sorria
E fique
(Comigo)
Por toda a
Vida
E a vida
Inteira
Seja sempre
Você
Viva
Bem
Muito
Intensamente
(Comigo)
Ria
Chore
Lute
Perca
Vença
Fuja
Volte
Pra mim
Fique
(Comigo)
E
Sempre
(Comigo)
Meu amor
Minha
Vida
=]

sábado, março 03, 2012

A mulher na mesa do bar

Reparei quando chegou. Veio de mãos dadas com Tristeza, Solidão, Angústia e Desespero. Escolheu uma mesa ao fundo do bar. Chamou o garçom, pediu uma cerveja, tirou os óculos escuros e começou a beber. Fazia pose de grã-fina e beicinho. Não me enganou, sinto o cheiro da amargura de longe.

Eu estava do outro lado do bar, na parte mais escura. Passei ali para beber uma água e descansar as pernas. Mentira, estava mesmo era em busca de alguma história, feito um vampiro à procura de sangue em uma noite qualquer.

Sim, a mulher na mesa do bar começou a beber, e a chorar. Começou numa choradeira silenciosa e, depois, começou a chorar soluçando e tremendo os ombros. Chorava. E chorava. O nariz e os olhos já estavam vermelhos de tantos as lágrimas jorrarem. Dava mesmo era vontade de chegar lá e oferecer ajuda, mas não podia me intrometer na história.

Ela não se importava com a presença de outras pessoas no local, quero dizer, o garçom e eu. Chorava e bebia. Bebia e chorava. E chorava, chorava e chorava. E bebia, bebia e bebia. Do outro lado do bar, comecei a pensar no motivo do pranto, se alguém tinha feito mal a ela ou se ela é quem tinha machucado alguém. Ninguém chora sem motivo, chora?

Motivo clássico: traição. Quando alguém vê uma mulher chorando acredita rapidamente ser a traição o motivo. Ela também poderia ter traído, arranjado outro, e estar arrependida. Não sei. Podia ter morrido alguém. Ou ela comemorava algum nascimento? Poderia ter sido despedida, ou poderia ter arranjado um novo emprego.

O velho aparelho de som do bar começou a funcionar misteriosamente. O garçom me olhou gesticulando um “não tenho nada a ver com isso”. O som, que cortava o silêncio como uma recusa de casamento corta um coração, era a poesia pura e mística dos versos “eu vou tirar você desse lugar...”. Ela levantou a cabeça, parou, escutou e começou a chorar copiosamente e originalmente. A mulher mais parecia uma fonte de praça a jorrar lágrimas.

Pensei em outros motivos. Poderia ter batido o carro ou moto, quebrado uma TV, computador ou a cara. Poderia ter sido reprovada da cadeira de cálculo da faculdade ou na monografia. Poderia ter acabado de ver o final da novela ou ter acabado de ler um livro. Poderia ter brigado com alguém por conta de um motivo banal, coisa comum.

Ela parou de chorar por um momento, limpou as lágrimas e tentou arrumar os loiros cabelos de raízes negras. “Minha deixa”, pensei. Levantei e fui caminhando em direção a ela. O garçom me olhava apreensivo. Fez um aceno com a cabeça, como se eu não fosse mais voltar, e ele poderia estar certo.

Cheguei e ela colocou os tristes olhos castanhos em mim. Coloquei a mão no ombro dela. Olhei no escuro dos olhos, no abismo dentro de todos nós, e compreendi. Nunca poderia compreender. Acenei afirmativa para ela com a cabeça. Coloquei o chapéu e fui embora, debaixo de uma fina chuva que começava. Pensei: “Quem mais chorará essa noite, além da mulher na mesa do bar?”. Nunca poderia saber...
=]