domingo, outubro 31, 2010

Casal esperto

Era uma dupla muito engraçada, não tinham casa, não tinham nada.
Ela morava com uma tia, ele vivia com a avó Sofia
Todos diziam que ia dar certo, sempre formaram um casal esperto
Maria Flor era costureira, trabalhava duro a semana inteira
João Matias era trabalhador e fazia tudo por seu amor

Levavam uma vida muito tranqüila, até que um dia naquela esquina
Apareceu um moço estranho, de cabelo preto e olhos castanhos
Tentou levar a bolsa dela, sem piedade, não teve trégua
Ele queria até brigar, mas ela disse “deixa pra lá”

Voltou para casa todo tristonho, que pesadelo, dia medonho
E decidiu que ia mudar e na polícia ia trabalhar
Ia prender cada bandido, deixar o bairro bem mais tranqüilo
E no começo deu tudo certo, o seu bom plano foi um sucesso

Até que um dia naquela esquina, o mesmo moço, que triste sina
Tentou roubar outra mulher, e João Matias não deu colher
Até mandou ele parar, deitar no chão, se desarmar
Mas veja só o que é o destino, de um dos lados veio logo um tiro

E lá estava um homem no chão, não teve chance e nem perdão
A sua família iria chorar, e de certa forma, se aliviar
Antônio Pedro da Salvação, mais conhecido como Pedrão
Queria mesmo ser jogador, ou então sambista, namorador

Mas imagine sua tristeza, comida sempre faltava à mesa
Não teve forças pra resistir, no mundo do crime passou a agir
E a vida então, nem foi tão longa, vida bandida, vida medonha
João Matias apareceu, Antônio Pedro, 19 anos, só faleceu

João Matias, tão bem treinado, atirou logo, foi bem mais rápido
Por muito pouco sobreviveu, puro reflexo, reconheceu
Mas não queria ninguém matar, mas um assalto queria evitar
Voltou pra casa, desconsolado, chorou três noites, estava abalado

Maria Flor então lhe disse: "volte pra feira e não desanime
Nós somos pobres, reconhecemos, mas muitos outros ajudaremos
Foi um acidente aquele dia, não fosse ele, tu que morria
Vamos ser fortes e trabalhar, uma vida toda temos que acertar"

João montou o seu negócio, juntou uma grana, arrumou um sócio
Maria Flor engravidou, nasceram gêmeos e uma nova saga só começou
E agora, então, como fazer? Com as crianças já pra nascer...
Maria Flor, com todo o amor, lhe disse logo, nem bem pensou
“meu bem, certeza, dá tudo certo, pois nós formamos um casal esperto”
=]

domingo, outubro 24, 2010

Conversa com a psicóloga...

- Então, é a sua primeira vez?
- Não, não. A minha primeira vez foi lá no interior onde uma tia minha mora com doze anos e aí...

- É a sua primeira vez com uma psicóloga?
- Não, não. Foi no carnaval de 2005, tinha uma psicóloga na casa e estavam todo alterados e aí...

- É a primeira vez que você se consulta com uma psicóloga?
- Ah, sim, sim.

- Você só pensa nisso?
- Naquilo?

- É?
- Naquilo o quê?

-...
- Hum?

- Vamos começar do começo, então.
- As preliminares?

- O começo da sua história!
- Ah, beleza. Meu pai conheceu minha mãe, numa discoteca ou tertúlia, nem lembro, uma coisa assim. Ele era meio John Travolta, sendo que numa versão tupiniquim de boca de sino e mais feinho. Minha mãe tinha um cabelão estiloso que devia gastar um quilo de gel ou laquê ou sei lá o que usavam naquela época. Aí depois do baile, conversa vai, conversa vem, tal, tal e aí eu to aqui.

- Na verdade, eu quero saber por qual motivo você está aqui. O tempo da consulta está passando.
- Minha “mãe” que disse pra eu vir.

- Hum, Édipo...
- Não, nada de Complexo de Édipo. Deus me livre mexer com a minha mãe. Com a dos outros, até que vai. Brincando.

- E por qual razão a senhora sua mãe disse pra você vir aqui??
- É minha “mãe”, entre aspas. É uma amiga que ás vezes parece minha mãe, na parte de dar conselhos e sermões.

- E você tá com algum problema?
- Agora eu tô liso, liso. Eita, consulta cara...

- E o tempo está passando...
- Pois bem. Vamos lá. Alice disse pra eu vir. Disse que eu não posso sair amando todo mundo por aí. Eu disse que não é todo mundo, são só algumas mulheres, inclusive ela e a prima dela. Mas eu não consigo deixar de ter tanto amor, se eu deixar só pra mim ou só pra uma pessoa é capaz de sufocar. Aí eu saio amando por aí e distribuindo amor e carinho.

- Isso, você tem que assumir...
- Opa, como assim? Assumir? Eu sempre digo pro Julinho assumir, se ele gosta de homem é opção dele e ninguém tem nada com isso...

- Eu disse no sentido de você assumir o seu problema.
- Ah, certo, beleza. Mas não diz pro Julinho que eu entreguei ele não.

- Resumindo, você é um cafajeste.
- Quem te contou?

- Ah, então é verdade?
- Pois é, nem é. Muitas vezes eu nem faço nada, e olha que eu não sou nem rico e nem bonito. Danço mal, gaguejo, me visto mal e só conheço piadas sem graça. Aí, algumas mulheres, eu até as entendo, precisam de amor e carinho e acabam me conhecendo, ou eu conhecendo elas. E aí, dá é certo. Elas querendo receber e eu querendo amar demais. Tem casos que eu tenho culpa, verdade. Mas tem tantos outros que sou inocente. Ajudei em traições até, passado distante, mas to evitando esse tipo de coisa. Negócio que só tem homem que só percebe a maravilhosa mulher quando tem outro de olho. Ou então é sentimento de posse, vai saber.

- E o que te faz conseguir tantos amores?
- Nem sei e nem são tantos assim... São alguns, mais ou menos... Tudo bem, são muitos.

- E você quer parar? Você não pensa nos sentimentos delas? Que pode fazê-las sofrer?
- No final da história eu acabo sozinho, elas voltam aos namorados, maridos, pro carinha que gostavam antes. Eu sou só uma sombra durante uma caminhada. Algumas se lembrarão de mim daqui a dez anos, serei uma boa lembrança. Outras, não contarão pros netinhos que me conheceram, nem pras amigas de hoje.

- E por qual motivo insiste nessa vida?
- Eu não, ela que insiste comigo. Brincando. Estou pensando em parar. Depois do carnaval do próximo ano eu paro. É porque eu não suporto ver mulher sofrendo, se eu posso fazer tantas felizes com um pouco de mim, ainda que seja uma rápida aventura, por que não? Eu não sou um anjo, muito menos um capetinha a infernizar essas mulheres. Mas se ás vezes eu dou um tempo, me aquieto, por que ficam me tentando?

- Você é realmente bom assim?
- Olha, eu não sei dizer. Pera, telefone. Oi. Sim. Vamos nessa. Claro, tudo bem. Amanhã depois do trabalho eu passo aí pra gente “conversar”. Ceeerto. Até, beijos. Pois então, voltando. Não tem como dizer. É uma questão de prática e não de teoria. Algumas aventuras duram só uma noite, outras tantas duram semanas, meses, anos...

- O tempo está acabando...
- Já vai dar 19h? E o meu problema?

- Deixe-me ver uma coisa aqui... Nós ainda temos quinze minutos
-...

~~~~~~
- E aí, Cafas! Como foi a consulta que a Alice disse pra tu fazer?
- Arthurzinho, foi boa, mas foi rápida...

- E no que deu?
- Deu em um cinema e um jantar. A psicóloga disse pra eu voltar mais vezes porque o tratamento vai ser demorado...
=]

terça-feira, outubro 12, 2010

Insistência

Essa é uma palavra engraçada, com um sentindo bom e outro ruim. Depende sempre do contexto. A frase "ele é uma pessoa muito insistente”, pode não significar uma coisa boa. Nem sempre a insistência é recompensada, mas pelo menos se pode dizer: tentei.

Tem um terreno baldio no caminho do trabalho e nunca havia reparado nele. Ele foi a ideia fundamental do texto. Porque as pessoas insistem em jogar lixo e outras coisas mais por lá, e ele insiste em responder fazendo brotar lindas rosas, amarelas e roxas flores. Ainda que haja lixo, a natureza continua a nos brindar com sua beleza. Pura insistência.

A política, por exemplo, é um bom exemplo. Os políticos, em sua enorme e gigantesca maioria, insistem em não fazer nada ou em ficar roubando o dinheiro do povo, quer dizer, nosso dinheiro. E mesmo assim, assustadoramente, eles estão sempre por lá. Ou então, eles sempre retornam, mais ou menos como aqueles vilões de araque de filmes de terror, mas essa é uma triste realidade.

Há pessoas especiais que pela insistência conseguem grandes transformações, tipo o Gandhi e o Luther King. E as grandes transformações da ciência costumam ser na base da insistência também, por isso voamos, navegamos, não engravidamos (algumas) e ficamos aqui pela internet trocando ideias. Engraçado, lembrei por acaso, nós insistimos em destruir nosso planeta, mas ele insiste em resistir (embora a natureza responda às vezes).

Tem gente que insiste na burrice. Evoluímos tanto e ainda tem gente brigando por conta de religião, cor da pele, time de futebol, opção sexual... Como pode? O tempo vai passando e as pessoas parecem estar regredindo. Sorte ter pessoas boas por aí, dessas a acreditar e fazer algo por um mundo melhor.

Na base da insistência muita coisa boa acontece. E pensando nisso, vou seguindo meu caminho. Pensando nisso, não desisto. Porque tu continuas a não confiar em mim e na sorte de ter um amor tranqüilo (embora eu preveja um bem agitado).

Pensando nisso, e muitas vezes ao dia, eu continuo tentando. Porque tu insiste em ser rude comigo, em me destratar e não me dar atenção como eu quero, e eu insisto em te dar todo o amor e carinho, que somente eu posso te dar...
=]

sábado, outubro 09, 2010

Ah, morena...

Incrível como a tua cintura veio com o tamanho exato do meu braço, é a conta certa.
E meu desejo não é te prender por toda a vida em meus braços.

Meu desejo é te dar abrigo e proteção enquanto assim desejares, o calor do meu corpo é todo teu.

Eu sei, tu não tem culpa, mas essa tua boca carnuda me desperta pensamentos que eu faço questão de te dizer num sussurro ao pé do ouvido.

Os teus olhos, grandes e amendoados, parecem maiores em contraste com os meus, que de tão pequeninos, parecem querer se esconder do mundo a cada sorriso.
Eu gosto dessa mistura, de desejo e lirismo.

A tua pele morena, fica tão mais bonita quando junto da minha, branquinha.
E sem querer, da nossa parte, a noite foi passando,marcada não por horas e minutos,
mas por afagos, carinhos, sussurros, sorriso, abraços, beijos e leves mordidas na boca, orelha...

Quanto tempo faz desde o último encontro? O que é mesmo o tempo para
nós dois? Nós, que não esperamos a vida toda um pelo outro.

Imaginamos outras pessoas, projetamos na vida sonhos e delírios de encontrar alguém que fizesse bem, que pudesse fazer feliz.

Engraçado, meu corpo não conhecia o teu, mas já não que mais saber de ficar longe,
só quer estar perto, só quer estar junto.

Eu imagino agora qual a medida exata de estar junto de ti. Qual o ponto saudável e necessário? Quem sabe dessas coisas?

Se um dia vai acabar? Uma certeza na vida é que tudo um dia acaba.

Mas por qual razão ficar pensando em um final, se a nossa aventura
está apenas começando?
=]