quarta-feira, abril 04, 2012

Crônica para as mãos dadas

Engraçado como um ato pode ser tão simples e tão significativo ao mesmo tempo. Esperava o trem da vida me levar para mais uma de minhas viagens, mas nada dele chegar. Nem sinal. Nenhuma ligação ou lembrança. Enquanto aguardava, o tema da crônica passou do outro lado da rua, lá na outra calçada, em frente à sorveteria. Era bem simples e, ou sou muito besta, romântico e viajo demais, ou ninguém mais valoriza o que eu vi. Foi discreto, mas para mim o tema parece ter assobiado e gritado “e aê!”.

O que aconteceu mesmo? Bem, não foi nenhuma desgraça ou ação social digna de nota no jornal local. Eu vi um casal passar de mãos soltas e, depois, juntaram as mãos. Andavam lado a lado quando deram as mãos. Pronto! Contato. Ligados. Unidos. Um ato nada sensual, sexual ou coisa do tipo, mas muito gostoso.

Eu sei, parece besteira, mas eu acho o máximo essa história de andar de mãos dadas. É uma forma de carinho pública e sem restrições, diferente do beijo. É um ato simples e de uma significação tremenda. Como assim? Bom, até onde eu sei, quando alguém está só “ficando” com uma pessoa, prefere não dar as mãos com medo de parecer “sério” demais e das outras pessoas todas já identificarem como namoro algo que ainda não está bem resolvido. Eu até conheço amigos usuários da prática, mesmo sem namorar nem nada, só pelo carinho mesmo.

O casal usuário costuma criar alguns códigos. Um puxão de leve indica uma direção, um forte, um desacordo, possível briga. E há códigos ainda mais suaves, quase imperceptíveis aos demais. São apertos. Um leve pode ser “olhe pra mim” ou “olha pra essa menina sem noção combinando short amarelo rasgado só de um lado com uma bata verde abacate com bolinhas roxas” ou alguma coisa do gênero.

Um aperto mais pesado é repressão certa. Alguém discordou de alguma coisa dita ou de alguma cena presenciada. Pode também ser medo de uma situação ou pode também ser coisa boa: alegria, excitação. Outra: a mão dada é um atalho para um abraço ou um beijo: você puxa e pronto, tudo certo.

Basta uma primeira vez e tudo fica bem mais fácil. Aquele começo tímido ou vigoroso não importa, importa mesmo é o agora. Quando ando de mãos dadas com minha mulher sinto que posso mudar o mundo. Sinto-me mais forte, maior, mais capaz, um super-homem. Por qual razão andar de mãos dadas? Olha, não consigo dizer mais nada, não sei explicar. Acho que, para um casal, as mãos entrelaçadas passam calor, carinho, confiança e confirmam, a todo instante, a vontade de estarem juntos!
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