sexta-feira, outubro 14, 2016

O coral negado


Quando mais jovem, antes de vender o fígado e um rim para poder comprar um carro e bem antes da PEC 241 destruir minha esperança de um país melhor, costumava utilizar bastante o transporte coletivo. Ia de ônibus para todo lugar, fosse teatro, balada, praia, cinema ou visitar algum amigo. Colocava a carteira de estudante no bolso, pegava uns poucos reais e ia embora.

Quem anda de ônibus sabe a dor e a delícia do transporte coletivo. Consegue enxergar o melhor e o pior no ser humano. Em um dia você vê um jovem dar lugar a um idoso. No outro dia, um adulto finge estar dormindo para não ceder o lugar. Você vê os olhares dos tarados, dos meliantes. Você vê a bondade das pessoas ensinando como chegar ao destino pretendido. O céu e o inferno todos os dias mesclam-se dentro dos ônibus da capital.

Um dia você é só sorrisos por chegar ao ponto do ônibus a tempo de pegá-lo, vazio e com ar-condicionado. Em outro, o motorista finge não ter visto você na parada e o próximo a passar vem tão lotado que as pessoas parecem pinturas nas janelas, de tão espremidas. Você respira fundo e mergulha naquele mar de gente, preocupado com a carteira e se conseguira passará por aquela massa humana a tempo de não perder a parada certa.

Em um desses dias, voltava para casa já tarde da noite. Vinha pensando nas provas e trabalhos da faculdade e se teria dinheiro para pagar a multa pelo atraso dos livros da biblioteca. O ônibus contava com apenas três silenciosos passageiros: eu, usando uma camisa vermelha do Bob Marley, na fila de cadeiras do lado esquerdo; um barbudo todo de preto e usando gorro, do lado direito, e um rapaz usando saia xadrez, com uma mecha de cabelo bem no meio do rosto, uma cadeira atrás do barbudo.

O rádio estava ligado, mas o estilo das músicas parecia agradar apenas ao motorista. Depois de uns vinte minutos, ele dá uma mexida no rádio, procurando outras estações. No exato momento da seguinte frase: "Caminhei sozinho pela rua, falei com as estrelas e a lua". Não sei o motivo até hoje, mas comecei a sorrir e, para meu espanto, os outros dois passageiros deram um riso baixo, nervoso. Talvez estivéssemos passando por momentos similares na vida.

Naquele momento, sem dúvidas, a canção tocou nossas almas e começamos a cantarolar juntos, baixinho, acompanhados pelo empolgado cobrador, cantando mais alto do que nós três, querendo ser a primeira voz do grupo. Um grupo, diga-se de passagem, bem estranho. Confesso , até hoje não sei cantar direito "Dormi na praça", mas o refrão eu sabia bem.

E quando ele chegou, já estávamos todos empolgados para cantar "Seu guarda eu não sou vagabundo, eu não sou deliquente, sou um cara carente, eu dormi na praça, pensando nelaaa". Eu, apesar da timidez, já estava em pé, na parte do meio do ônibus, abraçado ao cobrador, enquanto o barbudo abraçava o rapaz de saia. Que alegria! Quanta festa no meio de uma noite qualquer!

Mas aí a música parou. De repente. Olhamos para o motorista pelo espelho do meio. E ele não sorria. Balançava a cabeça negativamente e fazia um gesto de "aqui no meu ônibus mando eu". E a viagem seguiu silenciosa, como se toda a alegria do momento anterior tivesse sido sugada pela noite.

quarta-feira, junho 29, 2016

Tempos sombrios - Temer jamais


Esse foi escrito lá pelo meio de maio.

Não gostei. Não ia publicar.

No entanto, não se pode acertar sempre, não é?

Um abraço,

=]

Tempos sombrios - Temer jamais

São tempos sombrios,
Meu filho
Você vai entender
É um golpe, não tenha dúvidas
Descarado e patético

Não é somente por ela,
mas pela democracia
Ainda tão jovem
E já tão castigada

A solução
Bem sabemos
É a luta
O protesto
O barulho
O não calar-se

Aprenda, meu filho
Lutar
Sempre
Temer
Jamais

domingo, maio 01, 2016

Mortos. Vivos. Mortos. Vivos. Vivos.

Eis que surge um poema.
E ele precisa sair.
Ou eu preciso me livrar dele?

Depois de mais de um ano, um aparece.
É de boa ou má qualidade?
Não sei.
Sei que ele traz uma esperança de novos escritos...

Um abraço pra você que sem querer - ou não - veio parar aqui.

=]

Você morreu
De rir
Daquela piada sem graça
Contada no meio daquela palestra há três anos

Você morreu
De chorar
A perda da tia da cantina
Na faculdade onde estudamos

Você morreu
De vergonha
Quando te puxei pra dançar
No meio do shopping lotado

Você voltou
A sorrir
Depois de conferir as notas
E ver que não havia reprovado cadeira alguma

Morri
Em várias ocasiões
Ao te ver ruim
E nada poder fazer pra resolver

Saí de mim
Naquela noite
Quando nos apontaram uma arma
E te fizeram chorar

Morri de medo
De não dar certo
Aquela entrevista importante
Depois de ter me preparado tanto

Morri
De raiva
Ao ver um conhecido
Defender deputado fascista e golpista

Voltei à vida
Depois da virose
Ao acordar bem cedo
E te ver dormindo ao meu lado

Vivemos
Dias fantásticos
Naquelas viagens à beira da praia
E no alto da serra

Vivemos
Dias memoráveis
Onde não foi preciso fotografar
Para eternizar o momento

Nesta vida
Morremos
Diversas vezes
Mas seguimos vivendo
Enquanto muitos
Vivem
O tempo inteiro

E não vivem de verdade

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Deu branco

É preciso saber a hora de parar.

Acho que isso eu ainda não sei.

De volta, por enquanto.

Não sei até quando.

No melhor estilo "viagens na veia".

Beijos e abraços!

=]

Deu branco.
Tão branco
E profundo
Que parecia
Pior que as trevas

Foi um branco
Tão branco
Tão louco
Que me jogou
Além
Lá fora
No escuro

No branco
E no escuro
Eu era outro
Não eu

Quem fui
E quem sou?
Quem eu serei
Será eu?

No branco ou no escuro
O vazio é absoluto

Que eu não perca
Nunca
Nas vidas
Os meus tesouros
Os meus encantos

E se o tempo os levar
Que eu os guarde sempre
No coração

Que não falte jamais
Pra você
Pra mim
A força necessária
Pra seguir em frente
=]

quinta-feira, dezembro 25, 2014

Feliz Natal - 2014

Esses dias um amigo veio perguntar se eu gostava do Natal. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, foi logo soltando um:

- É muita falsidade, né?

É mesmo? Bem, a quantidade é relativa. Ontem eu desejei um Feliz Natal para muita gente - já aproveitando pra enviar logos os desejos de um próspero Ano Novo. Por sorte, não precisei ser falso com ninguém e nem tenho ideia se alguém fez isso comigo.

Uma amiga falou que prefere se esconder o máximo possível para evitar os falsos desejos de boas festas. Achei uma atitude louvável. Ao se esconder, ela evita estresse. Evita situações constrangedoras para ela e para a outra pessoa.

Pra mim, nesses últimos anos, só tive essas situações constrangedoras não por conta de desejos falsos, mas pelo fato de algumas pessoas não gostarem de felicitar e abraçar, e o abraço é uma das minhas paixões. Porém, respeito, com certeza.

- É muita falsidade, né?

Em alguns casos, até pode ser. No meu, quando felicito alguém que não simpatizo tanto, desejo realmente que a pessoa passe bem, sem ironia ou falsidade. Esse ano, no entanto, havia uma pessoa que tava difícil desejar alguma coisa boa. Só mesmo uma BOA distância entre nós. Ali era o exemplo de maldade pura, gratuita. Por sorte, não passei perto dela e muito menos a vi ontem.

- É muita falsidade, né?

Pode até ser em um bom número de casos, mas eu acredito que algumas pessoas ficam tocadas com a história do clima de Natal. Independente da história da data, as famílias costumam se reunir e o clima entre as pessoas melhora bastante.

E fica a pergunta: por qual motivo esse clima não permanece o ano inteiro?

Não sei.

Pra mim, algumas pessoas estão sempre nesse clima.

E eu sinto isso a cada encontro durante o ano. Uma energia boa difícil de explicar. E que é possível sentir também em todas as ligações telefônicas realizadas durante o ano e durante os dias 24, 25, 31 e 1º.  Adoro fazer as ligações, desejar as coisas boas e receber essa ótima energia.

O lado bom: o número de pessoas que eu tenho vontade de ligar para desejar Feliz Natal e Ano Novo é cada vez maior.

O lado ruim: meus créditos telefônicos não acompanham.

Se você chegou até o fim do texto, obrigado pela atenção e espero que o Natal seja bom e que o próximo ano seja maravilhoso!

Beijos e abraços

=]


quinta-feira, novembro 27, 2014

Nota mental, nota solta

Que nunca nasça
no meu jardim
esse bicho feio
chamado rancor

que eu aprenda
a perdoar
não ligar mais
ou mandar logo
ir se lascar.

=]

domingo, novembro 02, 2014

Domingo

É domingo. "Ninguém trabalha", "ninguém faz nada", dizem por aí. “É um dia inútil”, falam alguns. O relógio marca 7h39 quando pego o 405 - Parque Dois Irmãos/Expedicionários no começo da linha. O bom dia do cobrador é animado e o motorista liga o rádio e aumenta o volume. “Pra dar uma animada, né?”, fala, olhando para trás por um dos espelhos internos. “Essa vai ser rápida. Pra volta, já deixei duas tapiocas pra gente reservadas com o tapioqueiro”, complemente.

Enquanto seguimos nosso trajeto, rumo ao Centro, o domingo de manhã vai se exibindo. No primeiro campinho de futebol, ex-depósito de lixo, os coroas já estão todos com a camisa laranja do time. Batem bola enquanto esperam o time adversário. Todos descalços, alguns em forma e outros com uma barriguinha saliente.

No campinho mais à frente, alguns adolescentes fazem a vistoria das redes de um dos gols. Estão bem arrumados, com calça jeans e sapato. Devem ter passado rapidamente só para dar uma ajuda, talvez. Dessa vez, os astros são bem mais jovens. Devem ter no máximo uns 12 anos. Conversam enquanto vestem meiões e chuteiras e alguns já estão em cima de uma árvore, rindo despreocupadamente. O motorista suspira: “Ê tempo bom”.

Seguindo caminho, vi que o cabeleireiro já está sentado em uma cadeira na calçada, esperando possíveis clientes para um serviço e uma conversa. No ponto ao lado, o bodegueiro já está conversando e segurando o troco para um cliente. A moça do açougue acabou de tirar o último cadeado.

Não sigo só no ônibus. Não sigo só no coletivo. Subiu um pessoal bem arrumado e cheiroso, com bíblias, roupas sociais e algumas saias jeans até o joelho. Alguns vão em silêncio e outros vão conversando amenidades. Duas paradas depois, mais gente chegando: dessa vez, estilo moda praia. O cheiro de protetor solar briga com o dos variados perfumes.

Dá pra ver um senhor varrendo a calçada, uma jovem jogando água em outra calçada, um rapaz cuidando de um pequeno jardim e uma moça desobstruindo o caminho da água no asfalto. O vendedor de verduras passa e cruza com o rapaz da chegadinha, raridade hoje em dia. O vendedor de algodão-doce caminha lentamente e uma senhora empurra um carrinho de pipoca.

A minha parada chega. “Valeu, irmão. Bom dia aí”, digo para o motorista. “Bom dia, minha joia. Se cuida!”, despede-se ele. O porteiro me entrega o jornal e o zelador pergunta se eu vi os gols de ontem. Um rapaz passa com um balde cheio d’água para lavar o carro. Vejo um amigo indo ao supermercado e outros indo para o cemitério. Hoje é domingo, hoje é Finados. Aposto que vai ter gente vendendo flores por lá.

É domingo. O relógio marca 8h04. "Ninguém trabalha", "ninguém faz nada", dizem por aí. “É um dia inútil”, falam alguns. Sigo para resolver minhas pendências. “Ninguém faz nada?”. Sei.