quinta-feira, janeiro 06, 2011

Conversa com o padre...

- Meu filho, que alegria vê-lo de volta à igreja...
- Pois é, Padre Lino, ela apareceu na hora certa

- Estava em dificuldades, meu filho?
- Estava, começou a chover e eu não tinha onde me esconder...

- Ah, claro, ela também serve para isso...
- E para muitas outras coisas! Eu lembro de ter me escondido da aula aqui algumas vezes, de ter dormido nesses bancos nos intervalos do estágio. Lembro de ter conhecido aqui algumas garotas lindas e até mesmo um dia eu fiz...

- RAM, RAM!
- Opa, desculpa. Fiquei empolgado demais...

- Pode ter certeza disso...
- Mas já que estou aqui, o senhor bem poderia me ajudar. Ando com uns pequenos problemas...

- Antes de tudo, você não sente falta da gente? Do nosso grupo?
- Sinto demais! Pode ter certeza disso. Saudades mesmo daqueles encontros do grupo, de passar um final de semana naquela casa de praia do tio do vigário. Como pode essas meninas tão bonitas esconder seus belos corpos em pesadas roupas, não é mesmo?

- Vou fazer de conta que não escutei isso. Sim, como posso lhe ser útil, meu filho?
- Padre, é pecado amar demais?

- Até onde eu saiba, não vejo problema nenhum nisso, mas pode me explicar melhor?
- Eu tenho amor demais no coração...

- Mas isso não é problema algum...
- Eu adoro distribuir esse amor por aí...

- Mas isso é ótimo! O verdadeiro revolucionário é movido por sentimentos de amor, meu filho... *
- Poxa, isso é da Bíblia? De algum apóstolo ou santo?

- Não, é do Che.
- Ah, legal. Padre, como eu sei que é pecado mentir na igreja, mesmo eu não tendo mentido ainda, vou logo dizer o meu problema: eu tenho amor demais, mas apenas para as mulheres, todas as mulheres.

- Mas, meu filho, você deve escolher uma só e lhe dar esse amor todo...
- Eu juro que já tentei, juro. Aí vim pegar a opinião de uma pessoa imparcial como o senhor...

- Fez bem, meu filho.
- Porque eu confio nos senhor, que não é homem e nem mulher.

- Como assim?
- Opa, sem ofensas. O senhor é homem, mas, assim, não pode fazer algumas coisas de homem, entende? Não quis ofender.

- Certo, vamos em frente...
- Padre, o senhor conhece o amor?

- O amor de Deus, meu filho.
- E o amor das mulheres?

- Dos homens e das mulheres...
- Hum? Como assim?

- Nós somos todos irmãos, amor é amor.
- Bonito isso, mas isso não me ajuda muito não. O senhor, como todo o respeito, já esteve em um encontro? Já sentiu aquele perfume bom, de fazer delirar e guardar por muito tempo na memória? Olhou nos olhos dela e sentiu o corpo todo esquentar? Sentiu aquela pele sedosa, provou daqueles lábios carnudos? Acordou ao lado dela querendo mais e mais? Passou o dia pensando em alguém? Chorou a perda de um grande amor, comemorou aquele beijo roubado, sentiu aquele corpo quente em noites frias? Ficou preocupado com a possibilidade de perdê-la? Já teve o imenso prazer de provar...

- Tudo bem, não, não e não! Não precisa ficar se empolgando aqui.
- O senhor tem certeza?

- Absoluta! Que falta de respeito é essa, meu filho?
- Desculpe, padre Lino. Com todo o respeito, o não sei como o senhor conseguiu ficar esse tempo todo sem uma mulher...

- Bem, assim, quer dizer, como posso dizer, humm, argh, cof, cof... Só entre nós, não não precisa comentar nada com ninguém porque foi antes de entrar para o seminário e nem chegou a ser nada importante, mas teve uma vez, sem querer, lógico, que eu...
- Padre, eu sou um Cafas, acho melhor parar com a conversa, ir embora e não dificultar as coisas para o senhor. Acho que eu o estou pervertendo. Deixa isso para lá. Vou conversar esse assunto com outra pessoa. Mas deixa comigo que eu vivencio essas coisas por nós dois...
=]

* (- "Déjeme decirle, a riesgo de parecer ridículo, que el revolucionario verdadero está guiado por grandes sentimientos de amor.."- Fonte: "El Socialismo y el hombre en Cuba", de 12 de março 1965)

10 comentários:

marinaCavalcante disse...

E hoje eu vim disposta a ler e comentar... por isso, eis aqui:


Texto ótimo, gostei demais.
Leve, descontraído, bem humorado,
como uma boa crônica deve ser.
E, cá pra nós, como eu não consigo fazer. Hehe

Adorei a alusão ao pensamento do Che. Lindo, lindo, lindo! Eu nem conhecia... Já até salvei por aqui.

Pois bem...
continue, continue e continue
que a gente gosta de aproveitar bem o tempo livre lendo coisa boa.

E como você sempre diz...
Beijos e abraços! =D

Helena disse...

"- Porque eu confio nos senhor, que não é homem e nem mulher."

Hahaha
Ótimo. Morri xD
Adorei o texto inteiro.

Bjão.

Srtª Bêêh disse...

Adorei o texto, Rafael. Muito bom de ler, divertido e reflexivo. Parabéns! =)

Jéssica Trabuco disse...

Adorei o texto também, bem sincero esse rapaz que decidiu conversar com o padre hein?
rss

AS MESMAS disse...

O cafa corrompendo o padre!
Oo


esse cafa se supera!


Espero não topar com um desses na minha vida!

ssaroquinhaa disse...

Muito bom o texto. Eu amei. Se toda sinceridade fosse só essa o mundo tava feito, né? rss mt divertido e bem humorado o texto. Me identifico. Amei a frase do Che... deu uma reviravolta no texto todo ^^ parabens!

*** Cris *** disse...

Belo texto, bem descontraído.
Bjs!

Gisa Carvalho disse...

R(c)afa, só consigo te ver nessa conversa com o padre, falando com essa voz mansa... E quem entende do amor?

Hilário Ferreira disse...

Eu gostei do conto. Lembrei daqueles que vinham na gramática ou no livro de literatura em que a gente fica empolgado com a empolgação dos personagens.


Eu nunca tinha cogitado sobre o que me faria entrar na igreja mais outra vez...
procurar abrigo! (Nem que seja abrigo da chuva!)
Só isso já valeu o texto.

Leni.com disse...

Um nino traquina, cheio de hormônios, empolgação e amores...bem bolado as falas..fiquei com medo do que esse menino iria perguntar..rsrs