sexta-feira, abril 23, 2010

A outra


Chegou e foi logo atirando as chuteiras ao chão. Lavou as mãos e pegou uma garrafa na geladeira. Era de um litro, não sobrou uma gota d’água. Era sempre assim quando chegava do “raxa”: roupas suadas espalhadas, chuteiras cheias de areia sujando a casa, secando a garrafa d’água e não enchendo depois, parecia não ter mais jeito. Estranhou a casa silenciosa, onde ela estava, por qual razão não teria vindo reclamar da bagunça ainda? As janelas e cortinas fechadas, um clima meio sombrio. Teria ele esquecido o aniversário dela? Não, ainda estava longe. Qual seria ao motivo, teria ela saído de casa sem ter avisado?

Foi vasculhando a casa, grande, herança dos avós, cheia de móveis de madeira, televisões e rádios velhos. As fotografias espalhadas por todos os lugares em reluzentes molduras mostravam rostos sorridentes. Quadros e vasos a transpirar cultura. Um tapete muito antigo, do tempo que o avô insistia em soltar pião dentro de casa e era repreendido pela mãe. Uma casa de objetos velhos, mas cheia de vida, pulsando boas memórias por todos os lugares.

Encontrou-a na área antes do quintal, daqueles repletos de coqueiros, goiabeiras, mangueiras. Escutva a quinta sinfonia de Beethoven. Estava sentada na velha cadeira de balanço, tão antiga, mas ainda assim tão confortável. Ela estava toda de preto, não sabia se de propósito ou não. Tentou fazer uma gracinha dizendo: “Já é halloween?”. Mas ela nem esboçou sorriso algum. O clima estava tenso, embora fosse um dia lindo, com um forte sol e os pássaros a voarem despreocupados (que inveja!).

- Precisamos conversar.

- Tudo bem por mim.

-Você tem alguma coisa pra me contar?

- Conta os gols que eu fiz hoje?

- ...

- Desculpa, não vou mais comentar, embora um tenha sido lindo...

- Está tudo bem com você?

- Comigo tá ótimo, acho que ficaria melhor depois de um bom banho e de um almoço caprichado...

- Não tem nada pra me contar?

- Acho que não.

- Tem certeza disso?

- Acho que sim.

- Você não está escondendo nada de mim, ou está?

- Por qual razão está dizendo essas coisas?

- Você está bem diferente nesses últimos meses...

- É porque eu fiquei mais magro, tava doente, cê lembra, minhas roupas tão mais folgadas, mas com tua comida maravilhosa já eu volto pra forma de antes, não que eu fosse muito forte mas...

- Não é só por isso...

- E por que mais seria?

- Isso eu espero que você me conte...

- Tudo bem, você venceu...

- Você anda bebendo escondido agora?

- Não é nada disso, nunca fui muito de beber, ainda mais escondido, sem beber eu já sou meio doido imagine bebendo...

- Ta fumando?

- Deus me livre, apressar a morte eu não quero mesmo...

- Tá envolvido com tóxico?
 
- Mas nem! De droga basta o almoço lá da empresa, que miseráveis...

- Meu Deus, com tóxico não, por favor, tanto que eu te aviso...

- Calma, nem tem nada de tóxico, meu corpo, meu templo. Saúde acima de tudo.

- Já sei, eu já sabia, não tinha como errar...

- Por que fez essa cara?

- É mulher não é?

- ...

- Era só ter me contado...

- Mas eu ia contar, era só...

- Esses meses todos? Você sabe que não gosto de ser a última a saber das coisas...

- Desculpa, prometo não fazer mais isso...

- Você tinha dito isso da última vez...

- Mas na vez antes dessa eu havia contado e tu tinha feito um escândalo, fiquei chateado...

- Eu mudei, aprendi muito esses anos todos e sei o que deve ser feito agora. Você está feliz com ela?

- Muito, muito mesmo. A gente não controla os sentimentos não é mesmo? Meu coração a escolheu e não posso fazer nada...

- Entendo, então só posso desejar felicidades. Nós estamos nessa vida é para sermos felizes mesmo. Eu quero mais é a tua felicidade. Quero te ver bem. Traga-a pra cá para eu conhecê-la, prometo controlar meus ciúmes.

- Ah, mãe, você não existe mesmo...
=]

14 comentários:

Leni.com disse...

pensei que era um desses amores querendo ser livre..rsrs...Muito bom!
Fiquei arrasada com o primeiro bilhete de amor q. encontrei na mochila do meu filho,minha eterna criança.
Sobre os filhos,adoro um texto de Khalil
" Vossos filhos não são vossos filhos,
são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não podem fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos
são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito
e vos estica com toda a sua força
para que suas flechas se projetem rápido e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria;
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável."

Desculpa o comentário tão longo.

Tamyle Dias Ferraz disse...

conhecia já o texto do khalil no comentário acima. Poxa,, vi um pouco da minha história, mamãe tbm é ciumenta...
rsrs

belo texto, como sempre...

ah, a respeito do seu comentário no meu blog, o nome do livro era RELEMBRANÇAS do Milton Dias!
bjão

Naiana Iris disse...

Dizem que as mães sentem um grande ciúme, pelos filhos (homens)...
Achei a crônica interessante.
Adoro os seus textos!

Hilário Ferreira disse...

" Mother, do you think she's good enough
For me?
Mother, do you think she's dangerous
To me?
Mother will she tear your little boy apart?
Mother, will she break my heart?
-Hush now baby, baby, don't you cry
Momma's gonna check out all your girlfriends for you
Momma won't let anyone dirty get through
Momma's gonna wait up until you get in
Momma will always find out where you've been
Momma's gonna keep baby healthy and clean..."
Roger Waters



Como disse Roger Waters(Rogério Aquático segundo o Falcão), como dizia Freud(Freud Flinstonte segundo o Humberto Gessinger) ela é a primeira mulher, o primeiro amor e talvez a única amante da vida de um homem...

marinaCavalcante disse...

Começou a muito mencionar o
manjar maravilhoso... comecei
a desconfiar. Hahaha

Que idéias e texto ótimos!

Abraço,
sempre grande!

Flavih Jones disse...

kkkkkkkkkk..
imaginei um final totalmente diferente. hehe

Beijos

Josi Puchalski disse...

Hahahaha!

Ficou perfeito, muito bom! Ótimo jogo de escrita!

Beijoo

Katherine disse...

Eu já imaginava ser de uma mãe a fala, tenho uma que é igual, digo sempre que é meu marido.. ah desculpa invadir seu blog te adicionar e comentar, mas eu estava à procura do meu então achei o seu e agostei.. desculpas.. mas qualquer coisa é so me evitar rs.. um abraço.

Múltipla Lua disse...

Boa Tarde,Rafael!

Silenciosamante te acompanho,e mesmo não te conhecendo pessoalmente,admiro demais tudo tudo que vc escreve.
Parabéns pelo blog!
Peço desculpa se invado o campo do permitido!Abracinho virtual desse http://ummundinhoumquartinho.blogspot.com/

Múltipla Lua disse...

Boa Tarde,Rafael!

Silenciosamante te acompanho,e mesmo não te conhecendo pessoalmente,admiro demais tudo tudo que vc escreve.
Parabéns pelo blog!
Peço desculpa se invado o campo do permitido!
Abracinho virtual desse http://ummundinhoumquartinho.blogspot.com/

Aparece por lá!

Rafael disse...

caramba,muito bom

me enganou direitinho

parabens rafa

L. M. disse...

Poxa, amei!!!! Ficou um clima meio tenso até o final... Tava quase pulando pra última linha pra saber no que ia dar logo. Sempre bom te visitar aqui!

Juss disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkk

Adoreeeeeei!

Pensava que ele ia dizer que a mulher era ela mesma... ^^
Mas deixa quieto. :P

Ótimo texto, rapaz! =D

lorena disse...

rafa rafa, incrivel o teu talento pra falar de mãe.
me emociona muitissimo, vez que outra tento escrever para a minha mãezinha, mas nunca lhe sai nada a altura.

um dia chego lah

beijos-abraços meu querido