terça-feira, dezembro 14, 2010

Os presos

Em dias nublados, a minha vontade de escrever é quase tão grande quanto à de ficar deitado na rede, bem agasalhado, a ver os pingos d’água passarem em direção a terra. No entanto, é preciso ir trabalhar, é preciso... Depois de uma luta contra o frio e preguiça, de um banho com uma água bem gelada para acordar corpo e alma, consigo sair de casa.

E no meio do caminho tinha um pet shop, tinha um pet shop no meio do caminho. E se em dias de sol forte, calorento, eu já tenho as minhas “alucinações”, minhas “viagens”, nesses dias de frio bom então... E perdi o olhar e a cabeça contemplando as várias gaiolas e seus animais enclausurados. Antes dessa “perdida”, confesso, me perdi antes, ao observar uma mocinha varrendo a calçada da loja tão graciosamente. Só depois fui reparar nos presos em suas prisões.

Pois bem, outro sujeito reparava a tragédia comigo, em um silêncio cúmplice, de desapontamento com a privação de liberdade. Surge, então, outro elemento na história, um gato. Ele passava por entre as gaiolas com uma despreocupação interessante. Gato de rua, não tinha mesmo que ficar preocupado. E bicho com classe, pra gostar de fazer pose, é gato. Parecia um rei ali dentro. O pelo marrom, os grandes olhos azuis, a cabeça erguida, destacavam-no.

O outro sujeito comentou comigo, a olhar as gaiolas, num misto de saudosismo e gaiatice. “Quando mais novo, acordava com o canto bonito de tantos pássaros, e reclamava por eles acordarem cedo demais. Hoje em dia, acordo com o canto das sirenes das ambulâncias e das viaturas e lembro o quanto eu reclamava de uma dádiva”. Devia ser poeta o coroa, pensei.

Como via que eu concordava, pois balançava a cabeça afirmativamente, prosseguiu com seu ar filosófico. Falou da infância no Interior, das brincadeiras com os animais... E olhando para o gato, arrematou: “O gato é um animal que, com toda a certeza, não nasceu pra ficar preso”. Rapaz, na mesma hora venci minha timidez para dizer: “Na verdade, esse fato pra mim é novo, pois eu tô pra saber qual foi o animal que nasceu pra viver preso”. Ele ficou meio sem jeito, calou-se e ficou pensativo.

Lá de dentro da loja, o gato nos observava. Eu pensei ter visto uma tristeza no olhar dele, ao contemplar o cachorro enjaulado. Olhava para o totó e para nós dois na parada, como se compartilhasse da nossa tristeza ao ver o animal enjaulado. Ou talvez, quem sabe, buscava a afirmativa do cachorro, como se dissesse: “Tá vendo ali, fiel amigo do homem, dois homens que se acham livres?”. Mas eu acredito mais na hipótese dele estar pensando: “Coitados. Um dia tão bom pra ficar deitado, olhando pro tempo, e eles aí, deixando de aproveitar a vida...”.
=]

14 comentários:

Vanessa disse...

Caramba, tu se garante demais!
Posso passar mil anos sem vir aqui. A grata surpresa é sempre a mesma!
:D

Leni.com disse...

Fica a interrogação do sentido de liberdade. Ás vezes a porta trancada e a chave por dentro.
O cronista é assim: filosofa a partir das situações comuns.Imagino sempre vc muito jovem,mas com uma bela alma de velho.

Géssica Andrade disse...

Ola, boa noite. Muito obrigada pelo carinho de sempre no meu blog e desculpa a demora pra voltar aqui. Estava tão cheia de coisas da faculdade que não tava tendo tempo pra internet. Adorei o texto, lindo , como de costume.

Se cuida.

Beijos'

Dayane disse...

Estava com saudades!Fiquei muito tempo sem postar e sem responder os posts. Mas vir aqui sempre é muito bom!
Com esse posts, me lembrei de um fato recente: Minha cachorra deu cria a 5 cachorrinhos!Tds já foram dados =(!
Bjo,Day.

Naiana Iris' disse...

Acho incrível como você descreve de forma tão bela, coisas simples do nosso dia... Adoro vir aqui, não deixa de ler um só texto.
Abração.

Jéssica Trabuco disse...

Nenhum ser vivo nasceu para ser preso... é essa a mais pura verdade.
Como sempre, um ótimo escrito ;)

C.A. :) disse...

A cada dia que passa, me surpreendo mais :D Incrivel o seu mundo. Parabens pelos posts. abraços!

Dayane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Srtª Bêêh disse...

Incrível como um simples momento pode ser descrito com tanta sensibilidade.
Ual, há muito que não venho aqui. >< Perdoe-me por isso. Mas muito obrigada por seu carinho em meu recanto, foi muito bom e sempre é receber-te por lá. Uma noite maravilhosa para vc...

Beijos mordidos...

Folhetim Cultural disse...

Parabéns pelo blog e pelos textos... Tenho um blog chamado Folhetim Cultural gostaria que visita-se este é o endereço: informativofolhetimcultural.blogspot.com
Vamos trocar conhecimentos...
Ass: Magno Oliveira
Folhetim Cultural

Hilário Ferreira disse...

A chuva é hipnótica para o cearense...
Só de falar da lembrança da última chuva se viaja como se não houvesse retorno...
De muitas palavras para o que a chuva nos traz, dividimos um grande banho de chuva no "Pouca Vogal". Eu tava sem óculos e ainda quando estava, a maresia tomou minhas lentes. Na verdade, eu não queria ver, só queria ouvir e encontrar "alguma coisa que ainda nos emocione"...





Ps- Tu devia ter ido falar comigo.
Ps2- Estou quase pensando em escrever à respeito de talento. Acho que discordamos sobre as formas de existência dele.

Lari Medeiros disse...

Gostei dos detalhes do teu texto.
Li, adorei!
Vou te seguir ;*

Dá uma passadinha la no meu, começando agora.

Flavih A. disse...

Rafael o filósofo.. hehe
Adorei vizinho! xD

Beijos

Dayane disse...

Cá estou eu de nv ^^!