domingo, agosto 10, 2008

O que é isso? (sem título)

O sol ia aos pouquinhos se escondendo atrás da linha do horizonte. As montanhas, ao fundo e aos poucos, vão devorando-o e sugando toda a luz. Tudo ocorre lentamente enquanto o ônibus movimenta-se rápido como uma bala. Mesmo com tal velocidade, ainda falta muito tempo de viagem.

E ela esperando o tempo passar. Começa a ler a Bíblia e não duro muito tempo. Não consegue se concentrar. Começa uma reza com o terço entre as mãos. Termina rápido. Liga o rádio, mas as músicas não prestam. Ela quer voltar para casa e tal pensamento transtorna-a. Será que é o certo? A viagem vai ser longa...

O ônibus faz uma parada. Uns desembarcam e novos passageiros sobem. Ela apenas se distrai olhando a escuridão lá fora. Sente alguém sentando ao lado. Não dá importância. Perdida em pensamentos, não reparou em ninguém, pode até ser, que tenha conhecidos viajando junto, mas não percebeu.

Ao parar para olhar em suas pernas, tão grossas que mesmo o fino pano da saia não esconde, repara em algo inusitado. Uma mão estendida oferecendo uma bala.
-Aceita?
Ela vai subindo o olhar, começando na mão e indo até o rosto da pessoa que oferece. Um homem. Muito jovem e com um sorriso muito acolhedor, muito quente.
-Não. Obrigado.
E ela pensando “que homem bonito meu Deus. Bonito demais. Se não for um anjo deve ser um...” Melhor deixar para lá. Afastou tais pensamentos. Nem anjos nem demônios hoje à noite. Mesmo com a recusa, ele continuou olhando-a. Um olhar penetrante, confiante.
-Não nos conhecemos de algum lugar?
-Acho que não. Não lembro de conhecer o senhor. Desculpe.
Mas bem que gostaria, pensou ela. Não, era melhor não.
-Então deve ser de outra vida, brincou ele.
-Bem que poderia ser outra vida mesmo, ela deixou escapar.
E ele perguntou como quem não quer nada:
-Problemas?
-Nada que me tire o sono, ela falou tentando parecer tranqüila e não pensar nos problemas.
-E por que as olheiras? Desculpe reparar, mas mesmo assim você continua muito bonita.
-Obrigada, ela disse.
Por que esse homem fala de modo tão suave, como um encantador tocando flauta para uma serpente? Por que o coração passou a bater mais forte a partir do momento em que olho para o rosto dele? E ele não disse nada de mais. Será magia? Feitiçaria? Ela era considerada por muitos como uma pessoa fria. Mas essas pessoas não existem mais, não há passado. Ela não pode esquecer disto: vida nova. Foi o prometido ao voltar para casa.

Mas que estranho charme tinha o homem ao seu lado. Agora ele está de olhos fechados com a cabeça escorada na poltrona. Tão tranqüilo ele parece... Ela agora pode reparar melhor nele. Tão bonito... E ela sente o corpo esquentar. E a noite está fria. Ele a faz uma pergunta sem nem abrir os olhos:
-Não está com sono ou cansada?
-Não, não estou.
-Não se sente confortável para dormir nessas poltronas?
-Não, não é isso...
Ela não sabe por qual motivo não consegue formular uma frase com mais de três palavras.
-Olha, ele disse, se quiser, pode recostar a cabeça em meu ombro.
-Obrigada.
Como pode esse homem passar tanta confiança? Como pode ela aceitar? Logo ela, tão sofrida, sem encontrar homens de confiança há bastante tempo. Afastando tais pensamentos ela vai aos poucos encostando a cabeça no ombro dele.

...

Pela primeira vez na viagem ela sente uma sensação de conforto. Ela tenta não relaxar demais. Não parecer uma mulher oferecida. E que homem cheiroso, pensa ela. O corpo continua quente. Sente vontade de não sair mais dali de maneira alguma. Repentinamente o ônibus dá um tranco. Um forte tranco. Todos os passageiros tomam um susto. Alguns pertences voaram longe. Todos estão um pouco desarrumados.

...

Quando ela percebe, está abraçada ao braço dele, e, a mão dele, em sua coxa.
-Tomara que ninguém tenha se machucado, disse ele.
-Que Deus proteja todos.
-Acredita mesmo em Deus?
Por que perguntar aquilo? Ele perguntou sem nem se alterar, como quem pergunta se gosta de alguma comida ou se acha algo ruim ou legal.
-Acredito sim.
-Faz tempo?
-... e você?
-Claro, há forças do bem e do mal atuando na Terra.
Que calma ao falar, como se estivesse explicando a uma criança que dois mais dois são quatro... Como ele sabia que há pouco ela começou a ser religiosa... E ela continuava abraçada ao braço dele e ele com a mão em sua coxa. A mão quente, leve, mas tão quente... Foi esquentando ao longo da conversa, está tão quente e lhe dá um prazer que ela tenta disfarçar. Não podia parecer carente ou uma pervertida. Mas e ele: Por que não tira a mão da coxa? Sentirá prazer também?
-Se há um Deus, disse ele, deve haver algo para representar o mal, não acha?
-Prefiro não acreditar nisso.
-Prefere, mas acredita?
-Acredito somente em Deus.
-E por que a demora para responder?
-...
-Não se preocupe, vamos deixar anjos e demônios de lado hoje à noite.

...

“Essa frase... Foi como se ele a tivesse arrancado de minha cabeça. Será que ele me ouviu dizer? Não, eu apenas pensei. Será coincidência? O que esse homem tem que eu não consigo compreender... E porque essa conversa sobre Deus e forças do mal? Anjos e demônios. Não consigo entender...”, ela começou a pensar de olhos fechados. Ele não disse mais, como se estivesse dando um tempo para que ela pudesse pensar...

...

Então ela decidiu não mais pensar em nada, apenas continuar ali como estava, sentindo aquela mão quente sobre sua coxa, lhe dando um prazer secreto, aumentando aos poucos. Era como se daquela mão quente o calor fosse irradiado para todo o resto do corpo. Ela não entendia, mas não conseguia se concentrar para pensar. Estava apertando o braço daquele homem com força. Começava a morder os lábios...
=]

Um comentário:

Diego Medeiros disse...

Fui ao sabor do diálogo entrecortado por olhares e sentidos-tatos. Gostei mesmo, tive que lê-lo, todo, de um só tempo. Gosto dessa leitura ansiosa. Nos encontramos em breve. Abraços!