terça-feira, julho 08, 2008

Transtorno coletivo

Por azar, ou por sorte, não possuo nenhum apetrecho eletrônico portátil para ouvir música. Sei muito bem das vantagens e desvantagens de ter ou não ter. O bom é poder/ tentar relaxar durante alguma espera, em movimento ou parado. O ruim é porque eu me distraio facilmente sem música nenhuma, imagine com alguma. Por isso, em minhas viagens diárias nos ônibus da nossa Loura Desposada do Sol – ainda não entendo o “Loura”, mas tranqüilo – andei pensando novamente na situação dos nossos meios de transporte coletivo.

E a uma conclusão eu cheguei: não temos transporte coletivo, temos um transtorno coletivo. Fora os usuários de táxi, os outros estão todos nas mesmas condições, sub-humanas, diga-se de passagem. Falando em passagem, esta não sobe há três anos, mas nunca há de descer. Menos mal, afinal, pagar um preço alto por um serviço pobre, ninguém merece.

Voltando ao transporte, ops, transtorno coletivo. Vamos por partes. A espera nunca é agradável por conta de em muitos locais não haver proteção contra sol e chuva. E a proteção contra assaltos é apenas a fé. O negócio é ficar esperando e rezando. Primeiro, pra não ser assaltado. Segundo, para o veículo não demorar a chegar. E, por fim, para ele não vir tão super lotado.

Quando ele chega, se o motorista do ônibus parar, a batalha agora é para subir. O ônibus pára e a multidão começa a se mexer. Tal qual uma boiada, mas sem ninguém para tocar. Nunca dois degraus pareceram uma montanha. A pessoa escala os dois degraus sendo empurrada por uma multidão. Se não houver espaço lá dentro cria-se um. Em grande parte dos casos nem todos conseguem entrar, sorte talvez.

Lá dentro, a história é outra. Será sorte se não houver passageiros levando isopor, sacola, gaiolas e outras coisas mais que ocupam espaço. Não é culpa deles, precisam do transporte tanto quanto os outros. Fora isso, outras coisas mais.

Não há filas. Nessa hora você lembra de discursos políticos: - A massa de trabalhadores não pode continuar sendo espoliada! E nesse momento você sente-se na massa. Não há diferença entre você e o vizinho do lado, de cima ou de baixo. Você não sabe mais onde começa e termina seu corpo. Todos são uma massa só. Uma coletividade, não por opção, claro. O bom disso tudo é não precisar se preocupar em segurar em algum local, não tem como se mexer. Se a massa vai pra frente ou pra trás, você vai junto. Pode até dormir em pé, devendo ter cuidado com gatunos e tarados, vermes dos coletivos.

Há as pessoas mal-educadas e as bem educadas. Aquelas que se oferecem para segurar seus pertences e aqueles que fingem não estar vendo o seu sofrimento com pastas, livros, sacolas e tudo o mais que você precisa ou inventou de levar.

O ônibus pode servir para fazer novas amizades. Sim, é verdade, é possível. A pessoa começa a conversar como que não quer nada, apenas para passar o tempo e quando menos espera, pronto, fez uma amizade. Pode ser com o trocador, com o motorista e até com uma pessoa que você conhecia, mas nunca teve a oportunidade de conhecer melhor. Por conta das viagens nos ônibus essa oportunidade apareceu e passou a conhecer uma pessoa legal.

Tem pessoas que vão conversando na maior calma, parecem estar em casa. Todos escutam a conversa e fingem não escutar. Uns vão dormindo tranquilamente, o cansaço é grande demais. Muitos ainda vão passar nos Terminais de Integração e pegar outro ônibus. Chegar em casa é uma aventura grandiosa, melhor, uma odisséia. É preciso ter muita energia e paciência. A maior alegria é poder dar o sinal para descer, ou, como acontece ás vezes, ser expelida do coletivo. A maior alegria da pessoa é sair e poder chegar em casa, sem nem pensar que no outro dia vai ser tudo igual... =]

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