sábado, junho 16, 2012

O palhaço

Quando o motorista freou o ônibus bruscamente, ninguém entendeu nada, como de costume. Não subiu nenhum idoso, gestante, policial, oficial ou funcionário dos Correios pela porte da frente. Nem mesmo era uma paquera do motorista. Quem subiu as escadas lentamente e com ar cansado foi um palhaço. Um antigo conhecido do motorista.

Assim que subiu, disse um triste “boa tarde” e o coletivo entrou em delírio, como se todos tivessem sido picados por algum inseto com veneno alucinógeno. Todos começaram a rir. Alguns, com aquelas risadas largas, espaçosas, de se encher uma casa. Outros, com aquelas risadas tímidas, com a mão em frente da boca, ou rindo sem fazer som algum.

O motorista ria tanto que mais parecia prestes a sofrer um ataque cardíaco. Rindo, esqueceu da greve vindoura e da falta de dinheiro para pagar o plano de saúde da família. O cobrador ria e levantava as pernas de tanto rir, esquecendo-se das parcelas em atraso do apartamento e das prováveis traições da mulher.

Todos riam ao mesmo tempo como um coral bem organizado de risadas. E esqueciam do calor que fazia, da demora para chegar em casa, da falta de dinheiro para o remédio, do desemprego, das dores nos pés e nas costas, da fome, do agiota ligando o tempo todo, das contas no mercadinho e do motivo de tanta risada.

Os passageiros todos riam e, se ali fosse um picadeiro, o palhaço seria o mais feliz dos homens. Mas só ele não ria. O palhaço, centro irradiador da alegria desvairada para todo o ônibus, era o único a não rir. Por um momento, pensou em dizer ao pessoal que tinha acabado de perder o emprego e a namorada, além de andar pensando em largar a profissão e voltar a vender pipoca. Ninguém se importava se ele estava triste, ninguém nem ao menos foi lhe contar uma piada.

No entanto, as risadas encherem o coração do palhaço de alegria. Mesmo sem querer, ele viu que poderia fazer a diferença na vida das pessoas. Estava decidido a procurar um novo lugar para fazer suas palhaçadas. Pensou no Congresso, embora logo tenha largado a ideia, pois não iria gostar dos companheiros de trabalho. Uma coisa era certa: iria fazer de tudo para ser o melhor palhaço do mundo. Iria levar o riso para todo o planeta.

Não ia acabar com a fome, nem com as guerras ou injustiças, mas lembrou que uma risada bem gostosa ou um simples sorriso carrega força suficiente para mudar o nosso dia e deixá-lo um pouco melhor...
=]

2 comentários:

Géssica Paim disse...

Belo texto! =D

Katherine disse...

Foi pra mim esse...saudades daqui...