domingo, maio 16, 2010

Aprende com a chuva...

De volta.
E muito feliz com as palavras carinhosas que me deixaram por aqui.
Muitíssimo obrigado mesmo.
Sempre uma alegria e um prazer enorme estar com vocês, nesse nosso mundo virtual e que me faz tão bem.
A correria não parou ainda, mas não podia deixar de aparecer por aqui.
Até o próximo.
Beijos e abraços!
=]

Salomão colocava a blusa quando ela chegou. “Vai mesmo agora? Tá um tempo estranho, pode ser que comece a chover...”. E ele nem disse nada, ficou com uma cara de besta olhando para ela até dizer: “Olha, eu vou só comprar o pão e jornal no outro quarteirão. É coisa rápida, em menos de dez minutos eu volto. Ele está no carro já?”. Davi esperava no carro, olhando para o céu e para as árvores do quintal, mais consciente do que muitos de nós.

“Não vai correr, ouviu? Sabe que eu não gosto e não faz bem pra ele”. E ele respondeu: “Pode deixar, meu amor, vai ser bem tranqüilo”, enquanto pensava: “não faz bem é pra você, que fica preocupada, ele adora”. E foi embora empurrando o carrinho com o projeto de homem dentro.

Tudo correu tranqüilo. Comprou o pão, o jornal, jogou uma conversa fora, as pessoas deram mais atenção ao sujeito dentro do carrinho do que pra ele, contudo, ele nem esquentou. “É normal mesmo, agora ninguém quer saber de mim, tudo bem”. Foi caminhando, empurrando o veículo, tendo cuidado com os buracos, mas doido pra correr um pouco com ele. “Quem não gosta de um pouco de velocidade e o vento batendo na cara e mexendo com os cabelos? Ele não movimenta muito os meus, no entanto, eu gosto do vento na cara”.

Súbito, começa a chover. “Bem, eu não queria, mas vou ter que correr”, e começou a correr imitando um carro de fórmula um com a boca e escutando risos do pequeno ocupante, a se divertir com a situação toda. Encontram abrigo debaixo de um toldo de um restaurante que não abre aos domingos. Ficariam esperando a chuva passar. Enquanto isso, ia conversando com o jovem caronista, pouco preocupado se ele entendia ou não, mas explicando com a sua sabedoria da vida, que não se aprende na escola, faculdade, cursinho, MBa, correspondência, online ou coisa do gênero, mas unicamente vivendo.

“Olha cara, tá vendo a chuva? Tem coisa melhor que uma chuvinha dessa? Seria perfeito se estivéssemos em casa, ouvindo ela bater no vidro, deitados bem agasalhados ou fazendo aquela bagunça que eu sei que tu gosta. Presta atenção nessa mensagem bonita da chuva: na metáfora da transformação e renascimento. Ela cai e torna a subir num processo que eu não lembro o nome, mas que um dia tu aprende. Leva isso pra vida, tu pode até cair, mas não deve nunca deixar de tornar a subir. Não deve deixar jamais as dificuldades te barrarem, supera todas. Tu tem nome de rei, mas deve ser sempre humilde e obstinado como o mais pobre dos homens em termos financeiros. Tu deve ser o mais rico de espírito e dividir essa riqueza com os demais.” Fez um silêncio e pensou: “Poxa, mandei bem nessa”

“E tem outra coisa, tu vai aprender ainda o quanto um banho de chuva pode ser bom, tua mãe vai morrer de dizer que é perigoso, sendo que antes nós tomamos vários e vários banhos de chuva, mas sem entrar em detalhes agora. Somos dois loucos por chuva e ela fica se reprimindo, isso não se faz. Tudo bem, alguns adultos têm a mania de esquecerem tudo que fizeram quando novos. Eu sou contra essa hipocrisia, vou te avisar, tu vai fazer se quiser, pra aprender a quebrar a cara que nem nós quebramos muitas vezes. Quero tua felicidade, mas tu precisa aprender muita coisa, assim como eu estou sempre aprendendo. Nosso aprendizado nunca chega ao fim”.


Deu um sorriso maroto e continou a falar: “Trata a chuva como a tua professora da oitava série, que tu respeita e ao mesmo tempo quer estar dando uns amassos. Nem muito respeito e nem pouca vergonha. Quer dizer, uma coisa assim, tu vai entender ainda, mas não diz isso pra tua mãe, fica entre nós isso. Depois eu te digo mais coisas sobre as mulheres, entender não tem como, mas dá pra aprender o suficiente pra não ficar muito louco com elas, já que por elas não tem como mesmo”.

A chuva parou e voltaram pra casa. E lá vinha ela toda preocupada. “Ele não pegou chuva, não é? Tu não correu com ele, né?” Por qual razão demoraram tanto assim? Aconteceu alguma coisa?”. E ele disse calmamente. “Calma, mulher da minha vida. Não aconteceu nada, compramos tudo e nos abrigamos antes de começar a chover. Foi tudo bem, amore mio”.

E ela com o jovenzinho nos braços, ele a rir e a abrir os braços como quem quer voar e ela olhando desconfiada, conhecia a lábia do marido, embora soubesse que ele não faria ou esconderia nada de ruim. Convenceu-se de que tudo foi bom, mas não pôde deixar de perguntar: “Se foi tudo bem mesmo, qual a razão desse sorriso besta?”

“Oura, amor, tem coisa mais bonita e multiplicadora de sorrisos do que a vida?”
=]

11 comentários:

marinaCavalcante disse...

Não tem...
Não tem, não...

E, tu que sabe tão bem viver...
com uma família linda dessa, pq
haveria de não estar sorrindo?

Haha!

Lindo o diálogo.
Lindo o teu aconselhar e o teu,
ao mesmo tempo, despreocupar.

Ah, o exemplo da chuva...
a tua chave-de-ouro.

=*

E se não tivesse um quê de
real nisso tudo, não haveria magia
alguma.

Paaarabéns! Hahahaha ;D

camila chaves disse...

Ah, feliz em compartilhar que, assim como tu, também estou de volta. E agora espero que seja para ficar. Pode ser que não seja semanalmente, mas me esforçarei para escrever um texto que seja pela menos a cada mês. E espero que neste embalo tu estejas comigo porque teus textos são muito bons.

Este, por exemplo, me fez lembrar o Nelson Rodrigues, por quem deixava meus dois pés bem atrás, mas que depois de ler "Eu não tenho culpa que a vida seja como ela é", precisei retirar o chapéu e confessar que o cara escreve bem, ainda que os finais não sejam felizes.

E não sei, pareceu muito com o jeito dele de escrever. Achei que aconteceria alguma tragédia nessa tua história bonita. Isso foi bom. Fiquei me segurando durante o texto quase inteiro. Quase, porque finalmente chegou a parte da chuva.

Ah, esta semana tomei meu terceiro banho de chuva. Terceiro assim, desses que contam para valer. É que mamãe não me deixava fazer dessas coisas quando pequena. Ai, e foi bom. Bom assim, como ler esse teu texto. Hahaha.

Um grande abraço,

Gisa Carvalho disse...

É sempre muito bom ler tuas palavras, Rafa. Dão um conforto, refletem uma pureza, dessas que só conheço nos teus olhos. Chuva é sempre bom.

Leni.com disse...

tuas cenas são sempre tão reais.Vejo um filme e esta é uma bela cena,terna com gosto de paz.

lorena disse...

eu me orgulho demais de tu viu

meu cronista sábio e favorito

a melhor coisa q li nos ultimos tempos

sabio e despretensioso. leve, puro e humilde, mas antes de tudo feliz.

=]

Josi Puchalski disse...

Lindo. Imaginei toda a cena! Gosto da tua maneirapoética de ver cenas do cotidiano.

:-)

Bia Monteiro disse...

"Chuvaaa... eu peço que caia devagar..."
Que belezaaa,hein...
Brigadão meu amigo pelo carinho
E pela força no outro blog...
Bjos
=)

Luiz Guilherme disse...

gostei mesmo do dialogo. bem leve e descotraido...

http://guilg7.blogspot.com/

vlw

L. M. disse...

Uma das coisas que sinto mais falta por não poder ter mais tempo disponível na internet é de vir aqui... Mas que bom que sempre que venho só encontro coisas boas!

Adoro te visitar!

Beijão!

Rafael disse...

KRA,Q LINDO ISSO

a parte da professora de oitava serie foi a melhor uauhahuahuahu

parabens mais uma vez por essa,voce eh bom

Jéssica Trabuco disse...

Aaaain, que liiindo!
Que texto gostoso de se ler!
Muito sensíveis suas palavras... muito bom mesmo, eu AMEI!

"...tem coisa mais bonita e multiplicadora de sorrisos do que a vida?" NÃO TEM ;)