domingo, agosto 08, 2010

Flechado

Fazia fria e ao mesmo tempo o sol esquentava minhas costas. Estranho? Pode ser, mas verdadeiro. Era uma terça-feira, por volta das 7h30 da manhã. Esperava o coletivo para ir ao trabalho, sem nenhuma expectativa, quando aconteceu. Fui flechado, pelo menos umas três vezes. Como pude ter sido um alvo tão fácil? Quantos outros não foram vítimas também? E eu estava tão bem olhando o vento fazer as folhas secas voarem em círculos formando uma interessante ciranda natural...

No primeiro momento em que ela me ganhou, nada fez. Apenas ficou parada, sentada em um dos bancos de cimento, assim como eu. O cabelo castanho sendo mexido pelo vento, os olhos um pouco puxados e a pele branca feito as nuvens em um sábado bonito. Olhei e no mesmo momento fui flechado, sem chance alguma de escapar.

A segunda flechada não demorou muito. Enquanto ela conversava com uma amiga, tal qual Dom Quixote eu Seu Pança, um simples gesto me fez querer conhecê-la mais do que apenas visualmente. Ajeitou uma mecha do cabelo, colocando-o por trás da orelha. Foi tão automático como abrir os olhos, mas teve uma delicadeza de ourives e um carinho de mãe ao acariciar o filho. Estava ficando perigoso permanecer olhando.

Infelizmente, eu gosto desse tipo de perigo. Se eu não puder mais me apaixonar e quebrar a cara, qual vai ser a graça de ter um coração? A terceira, e mais mortal flechada, me fez querer passar a vida inteira ao lado dela. Sorriu. E quando o fez, quase eu me derretia por inteiro. Tive de segurar meu coração bem forte para o danado não ir lá abraçá-la e beijá-la à força. Coração é isso mesmo, pura emoção.

Nosso transporte chega – nosso mesmo – ela também vai junto. Fica em pé um pouco distante de mim, mas enquanto passo por ela, posso sentir um delicioso e conhecido perfume, o da paixão. Depois disso, o dia acabou e só voltou a ter alguma graça na manhã seguinte. Lá estava ela, foi tudo muito rápido, não tive culpa alguma.

Subimos todos juntos e ela senta ao meu lado. Coisas do meu compadre, o Destino. Sempre tentando me ajudar e me atrapalhar e eu nunca entendendo, sempre confundo. Pois bem, ali ao meu lado, nada fiz para iniciar um contato. Não tive vontade. Havia passado, talvez tivesse sido até paixão mesmo ali na hora, ou, quem sabe, apenas delírio de um pobre escritor e seu coração vagabundo...
=]

13 comentários:

Gisa Carvalho disse...

às vezes a vontade passa, mesmo. E aí o que podemos fazer? Esperar uma nova flechada! ;)

Livia Queiroz disse...

Ain que fofo!
Mas coração tem dessas, é um vem e vai...
"Coisas de escritor e seu coração vagabundo"

Belíssimo conto. Adorei!

Helena disse...

Ah! A inconstância do amor...
Beijo.

Naiana Iris' disse...

Não sei se estou enganada, mas os seus textos me dão a idéia de que você faz o tipo '' eterno apaixonado'', acho isso tão lindo... Vai que um dia dá certo, não é? Acho mais bonito ainda, porque suas paixões e fatos cotidianos sempre me rendem uma boa leitura e uma breve e profuda reflexão.
Beijo, Rafael.

Jéssica Trabuco disse...

Você descreve seus textos de uma forma tão deliciosa.
Muito bom escritor vc mocinho! *_*

Katherine disse...

Engraçado porém verdadeiro, já senti isso, o imaginário simbolista querendo fazer uma graça, a gente sempre tem desses rompantes de querer algo assim, algo de momento, rápido, furtivo, prém intenso...já aconteceu comigo, mas so me sobrou o sabor do momento, nada além, certas coisas acontecem e nos enaltecem, deixando um sabor incrível, outras passam mesmo, gostei muito desta parte: "Infelizmente, eu gosto desse tipo de perigo. Se eu não puder mais me apaixonar e quebrar a cara, qual vai ser a graça de ter um coração?", o mais complicado é: Conseguir deixar acontecer, o medo as vezes prevalece e nossa vontade de querer se resguradar é muito maior, mas quem sabe um dia não é mesmo? um grande beijo estava sentindo falta de suas escritas.

Kathê.

Katherine disse...

Bem um dia eu vou mesmo Maceió é perto? rsrs tenho um amigo que foi morar lá e em breve quem sabe eu encontre-o, minha amiga namorada dele vai visitá-lo, quem sabe ainda um esbarrão da vida em um café? rsrs bjs

Tamyle Dias Ferraz disse...

Delírios de um escritor e seu pobre coração vagabundo...

YslanRodrigues disse...

Merecia um outro final.. hehehehe

Géssica Andrade disse...

as vezes passa, outras não (isso já aconteceu comigo também). Mas é tão bom, faz a nossa vida mas divertida, interessante. E o melhor é que nossa alma enriquece, engrandece, vivendo assim uma eterna descoberta. Adoro vir aqui, seus textos sempre maravilhosos.

Beijos, Rafael. =)

c.miChel disse...

eita...a paixão, pega de jeito mesmo, faz ver o mundo diferente, faz renovar, sentir vontade, faz ficar bobo, alegre, tudo ao mesmo tempo...ah paixão."Se eu não puder mais me apaixonar e quebrar a cara, qual vai ser a graça de ter um coração?"."Coisas do meu compadre, o Destino. Sempre tentando me ajudar e me atrapalhar e eu nunca entendendo, sempre confundo."

ssaroquinhaa disse...

Nossa, perfeito. Nosso coração tem dessas cosias... cada dia, uma nova emoção. Amei o blog, te seguindo. *-*

Srtª Bêêh disse...

Se não fosse para amar de que adiantaria ter um coração? Perfeito!