sexta-feira, maio 17, 2013

Crônica sem mensagem


Era sexta-feira à noite. Não sei ao certo o horário, pois saí do trabalho no horário de sempre, demorei muito para chegar ao terminal de ônibus e já esperava na fila fazia algum tempo. Dava pra ver muita gente voltando do trabalho, indo e voltando para aula e também já indo para alguma festa. Estava cansado, confesso, e tudo que mais queria na vida era a chegada do ônibus para poder ir para casa, tomar um banho, jantar e dormir.

Os vendedores passavam a todo instante, oferecendo doces, pipocas e outros itens para enganar a fome. Não aceitei nada. Só queria o ônibus. As pessoas reclamavam da demora de vez em quando. Não fiz coro, apenas fiquei observando e aguardando. Era mais uma noite no Terminal da Parangaba, esperando, esperando e esperando.

Estava no meio da fila, escorado numa das placas, olhando pro tempo e vendo o nada acontecer. Duas senhoras, à minha frente, conversavam em voz baixa, olhando torto em várias direções. Atrás de mim, um gordinho escutava música em alto volume. Tão alto que dava para escutar claramente, mesmo ele usando fones de ouvido. Ao lado, estudantes brincavam entre si.

Uma senhora brigava com o filho, mandando-o tirar o dedo do nariz. Um senhor escutava um programa esportivo em seu rádio e uma mulher pisava impacientemente no chão, querendo demonstrar seu descontentamento com o atraso do coletivo. Dois jovens tentavam flertar com uma loirinha, que não dava bola. Duas jovens, com roupa de academia, conversavam sobre as festas do sábado. Outras duas combinavam uma praia no domingo. Personagens diversos, iguais apenas na hora de reclamar.

Em um banco, ao lado das filas, um senhor estava deitado e parece ter acordado com a brincadeira dos estudantes. Começou a cantar. “Eu nasci há muitos anos atrás. E conheço essa bodega toda, pra frente e pra trás”. E fazia a primeira voz, mais grave, e a segunda, mais fina. “Eu nasci (voz grossa), eu nasci-iê-iê (voz fina)...”. Quem não estava horrorizado com a cantoria repentina, começou a rir disfarçadamente. Ele parou de cantar e olhou para fila.

“Aê, pivetada, tempo bom é esse aí, viu? Muita saudade da minha época de Liceu e cachacinha na Volta da Jurema”. Os estudantes começaram a rir, mas não comentaram nada. O senhor parecia um Raul Seixas mais gordinho, com uma camisa aberta até metade da barriga. As duas senhoras começaram a cochichar e a balançar a cabeça negativamente. O senhor não gostou.

“Minhas patroas, não gostaram de mim não, é? O que eu fiz pra vocês? Tão com inveja da minha liberdade, né? Fiquem sabendo que o senhor também é meu pastor e nada me faltará. Ele vai me fazer respeitar todo mundo, até aquele que eu não gostar. Bebi umas mais cedo, mas não perdi o respeito por ninguém. Todo mundo é filho de Deus e merece o mesmo respeito. E digo mais: não digo é nada”.

Antes que uma discussão começasse, o ônibus chegou e todos subiram. O senhor, não sei se embriagado, um pouco louco ou irreverente mesmo, fez que ia subir também para pegar um lugar, mas parou repentinamente e começou a sambar e a cantar: “Isso aqui iô iô, é um pouquinho do meu Ceará iá iá”. Finalizou com um giro e uma reverência, enquanto os passageiros começavam a rir.

Fui pra casa pensando em escrever sobre o acontecido. A crônica teria uma mensagem sobre respeito ao próximo ou, talvez, a felicidade dos possíveis loucos, ou algo do tipo. Gostei da frase “o senhor também é meu pastor” e achei que ela merecia uma reflexão sobre religião ou religiosidade.

Ia pensando nisso quando puxei a cordinha e dei sinal para descer do ônibus. Umas das garotas falou assim: “Eita, com um homem desses eu não sairia de casa nem pra trabalhar”. O gordinho vinha descendo comigo e não sei se falaram isso para ele ou para mim. Não entendi também se era um elogio ou apenas gozação. No fim, tirou minha concentração, a ideia fugiu e não teremos uma crônica com uma mensagem bonita...
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