domingo, março 20, 2011

Tchau

Feliz da vida ia para casa, numa noite dessas qualquer, de lua bonita e céu mais estrelado feito não sei dizer. Mesmo triste por ser obrigado a me desgarrar da minha morena, ia feliz pelo tempo passado junto (muito ótimo, por sinal). Ia tranquilo por um dos nossos humilhantes coletivos. Estava sozinho na parte traseira do coletivo quando subiram um homem e uma mulher e me obrigaram a passar. E fizeram isso com um tipo de violência diferente.

Ele, coitado, não sei se por falta de banho e desleixo mesmo ou por estar voltando da luta diária, do trabalho de onde tira o sustento, soltava um cheiro azedíssimo pelo ar. A moça usava um perfume ou brilho tão doce, tão enjoento, que eu não entendia como a própria suportava. Agora, imagine a mistura desses dois odores. Como estava recebendo a mistura diretamente, decidi atravessar a roleta/catraca e ir sentar lá pela frente.

Observava o movimento, tanto interno quanto externo. As pessoas e carros a passarem lá fora, as idéias e sensações a rodopiarem aqui dentro da cabeça. Estava distraído quando um desses acontecimentos que mudam a vida da gente aconteceu. Não, o ônibus não bateu, não teve assalto e nem ele quebrou. Uma senhora subiu pela porta da frente e sem mais nem menos colocou uma criança na minha cadeira. “Cuida dela pra mim?”, e teria como eu dizer não?

Não sabe ela que mal sei tomar conta de mim, imagine de mim e de uma criança dentro de um coletivo. Naquela hora, eu me senti o responsável pela vida dela, não só presente, mas futura também. Eu já disse como era a criança? Uma menininha, uma doçura, de vestido branco, cabelos castanhos, gordinhas bochechas, olhos curiosos e pele branquinha a segurar um simples balão rosa. E me olhava sem nada entender. Fiquei com medo dela não querer a minha proteção e começar a chorar, mas não chorou.

Tentei um diálogo – eu sou ótimo em diálogos – para estabelecer algum contato. Ela respondia num dialeto incompreensível para mim. “Gliboxiu, absthui, shala-la-la”, devo até ter dito isso alguma vez na vida, mas já não mais entendia, se é que entendia naqueles tempos de criança. Talvez minha mãe entendesse, pensei em ligar para ela e pedir uma tradução simultânea, mas desisti.

E pensei em um milhão de coisas para contar para a pequena: cuidado com os homens, mulheres, em todos os sentidos possíveis, crianças e velhos; tanto tem gente boa como ruim nesse mundo. Memoriza isso. Mas eu gostaria mesmo que ela entendesse a seguinte mensagem: pequena, aproveita bem a tua infância, adolescência, maturidade e velhice. Quando for velha, vais poder olhar pra trás e dizer: “Vivi bem demais, fiz muita coisa, conheci muitas pessoas e lugares e, principalmente, fui feliz”.

Eu até entendo o fato dela não entender nenhuma das minhas palavras e nem fiquei triste por isso. Ela me olhava e olhava, inclinava a cabeça para um lado, abraçava o balão, colocava-o na boca e eu tenho a certeza, quase certeza mesmo, de tê-la visto balançando a cabeça afirmativamente. Minha missão estava cumprida, ninguém poderia dizer que ela não teve instrução quando criança, fiz minha parte. A mãe voltou e a tomou de mim. Desci do ônibus como se faltasse alguma coisa. Pela janela, ainda pude ver a pequena a colocar o balão na boca e quase choro ao ver aquela mãozinha branca acenar um singelo tchau para mim...
=]

10 comentários:

Gisa Carvalho disse...

Que lindoooo!!! Adoro crianças e sempre puxo conversa com elas nos ônibus.. Um dia, essa pequena ainda pode te reencontrar e aí sim, você poderá dar seus conselhos de modo que eles sejam compreendidos.

Me encanta a pureza e inocência das crianças. A menina deve ter ficado encantada com o sorriso que vc a presenteou.

Jéssica Trabuco disse...

Olha... você sempre me deixando surpresa.
eu sou uma amante de crianças... adoro mesmo! Sou louca para ter filhos. E esse seu conto me fez sorrir feito uma mãe boba várias vezes, sabia?
Obrigada por essas sensações, querido.
Um beijo!

Katherine disse...

Elas nos inspiram de várias formas, nos inspiram tantas palavras não é mesmo?todos os dias eu as vejo brincas como se nada mais existisse, e não existe mesmo, é só aquele momento, aquela brincadeira, aquele mundo, as crianças todos os dias ali presentes em nossas vidasa e achamos que por serem pequenas não atribuem muito o nosso pensar ou agir, na realidade é o contrário, elas nos move...mostra como é importante a beleza do simples e singelo, quando escrevi Luana e vc comentou foi um aluna minha que disse a primeira frase e me inspirei em continuar, toda tristeza é passageira com certeza, como a felicidade também se faz presente dos momentos que aparecem. Enjoy, ou carpe diem...ou então aproveite mesmo sempre como se fosse o último instante é o que sempre quero passar aos meus alunos, pq quando nos tornamos adultos um mundo imaginário de perfeição se desconstrói abrindo para um mundo real e consumista.. de várias formas.

Amei o seu post.. e a inocência infantil é algo que sempre gosto de escrever e de ler também..

Um beijo grande..

Dona Cor disse...

Adorei o texto, primeira vez que entrei aqui, adorei a forma como escreve, me senti ali, do lado da menininha. =)

Seguindo!

Hilário Ferreira disse...

Tu não entendeu direito, crianças são fluentes em baleiês! Por isso ela não te respondeu.

Poetisa (Helena) disse...

Eu sempre achei que era uma insensível que não gostava de crianças. Mas é mentira, eu fico babando quando vejo um bebê, ou o riso inocente de uma criança pequena.
Eu vejo crianças, pisco para algumas e elas piscam de volta. Eu rio e elas riem. Quase consigo me ver nelas. São como pedacinhos de anjo andando na Terra.
E sempre que vou embora, fica essa sensação...

Lindo blog! Estarei seguindo. Te convido a seguir/visitar:

http://escrevoparaviver.blogspot.com

C.MicheL disse...

Sempre bom ter crianças por perto. senti saudades de minha afilhada agora. E olha que lendo isso eu percebi uma leve vontade sua de ser pai heim? esta criança no ônibus foi um sinal...rs abraço fio.

Roberta Galdino disse...

ótimo
muito bom mesmo
parabens
te sigo

http://rgqueen.blogspot.com/

Leleu... disse...

Grande rafa... ja imaino tu falndo cum a menina, inflando as buchechas e abrindo aquele sorrisão.

Tamyle Ferraz disse...

Me fez lembrar o menino do desinfetante, mas essa é outra história. Adoro crianças!
Quando elas estão quietas e limpas.

chorando, com sono e cagada...só no colo dos pais.