sexta-feira, fevereiro 02, 2007

História de um bairro e sua gente

Contra os que acusam Fortaleza de ser uma cidade sem memória, foi inaugurado o Memorial da Gentilândia, contando a história do bairro. O projeto é de responsabilidade do professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE) Elmo Vasconcelos e demorou nove meses para ser feito. O memorial fica na Rua Francisco Pinto número 128, no Benfica, funcionando no Bar do Marcão. O apoio cultural é da Federação das Empresas de Transportes Rodoviários dos Estados do Ceará, Piauí e Maranhão (CEPIMAR) e é idealizado pela Confraria da Gentilândia.
Segundo Elmo a idéia surgiu dos encontros semanais da confraria, no Bar do Marcão, em que eles “trocavam figurinhas”. Até que surgiu a pergunta: Por que não colocar para Fortaleza? As fotos que ilustram os doze painéis foram doadas por ex-moradores e moradores atuais, enquanto outras tiveram de ser compradas, como por exemplo, algumas do arquivo do historiador Nirez. Os painéis contam a história do local sob diversos aspectos. Mostra o pioneirismo da família Gentil, as confrarias do bairro, as mulheres ilustres, o comércios de destaque, enfim, a história através de fotos e textos.
Nos painéis é contada a história do bairro, inicialmente confundindo-se com a do coronel José Gentil, que dá nome à pracinha local. Fotos da família Gentil vão se misturando às fotos sobre as primeiras casas, educação, festas, esporte e até da visita do então Presidente do Brasil Getúlio Vargas à cidade, hospedando-se em um dos casarões da família Gentil.
O presidente da CEPIMAR, David Oliveira, é responsável pelo apoio financeiro ao memorial. Os pais dele, moradores antigos do local, fundaram uma das primeiras empresas de transporte do Ceará. David mostra as fotos contando suas curiosidades: quem está vivo, quem morreu, o que fazia, o que faz agora, como era o local e o que é atualmente. A mais difícil de conseguir, segundo ele, foi a do antigo Cine Benfica. A foto pertence ao arquivo do jornal O Povo e foi encontrada numa matéria sobre imóveis abandonados.
À primeira vista, pode parecer estranho o local escolhido para colocar o memorial. O dono do bar, Marcos Alves, o Marcão, explica que foi por conta dos membros idealizadores do projeto freqüentarem o local. Os participantes da Confraria da Gentilândia se reúnem no bar todos os sábados. “Todos clientes fiéis”, conta Marcão. Por conta do memorial o estabelecimento passou a receber mais pessoas. Segundo o proprietário, “alguns comerciantes não gostaram por causa da concorrência, mas outros ajudaram. Bom que é um algo mais pro bairro”.
O local onde ficam os painéis é o antigo quarto do Marcão. São quatro mesas, cada uma com duas cadeiras, onde os visitantes podem se acomodar. O lustre do local é bem diferente, parece uma cuscuzeira, feito pela filha do David Oliveira. O dono do bar, natural do Cariri e antigo morador do Jardim América, explica como chegou à Gentilandia: “Passando por aqui, gostei do local, abri o bar e me estabeleci”.
O professor Elmo, que defendeu dissertação de mestrado na UECE sobre o Benfica, deseja que o memorial seja seguido como exemplo. “Tomara que seja embrião para outros bairros. Identidade é o que a gente já viveu”. O memorial fica aberto para visitas de 8:00 da manhã às 10:30 da noite. Como bom “gentilandino”, o professor expressa seu carinho pelo local. “Gentilândia não é um bairro oficial, é um vivido. Nós nos tornamos Gentilândia”, afirma ele.

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